segunda-feira, 31 de julho de 2017

NOITE CRÔNICA - - O Gato está dormindo - - De Walmir Ayala

“Noite Crônica”

 “O GATO ESTÁ DORMINDO”


O gato está dormindo sob a cômoda e curiosamente pousou a cabeça debaixo da proa de uma caravela de madeira, feita por um artista popular de Salvador. A caravela é opaca e ressequida, estiliza o desenho real num arremedo de proporções que logo concretiza o brinquedo. O gato é macio, de um cinza estriado, como o mais comum dos gatos, mas repousa como um ídolo, como aqueles ídolos pachorrentos e bem nutridos que um dia eu vi nos templos japoneses. O gato parece nem respirar, tão profundo e perfeito é seu sono. Algo parecido com a morte, sem o terrífico vazio dos corpos sem alma.

Observo atentamente este gato cujo repouso é divino, e contraponho o outro lado tão humano do animal - sensual, interesseiro, meio agressivo no afeto, desconfiado e dono de si mesmo, mais do que tudo. No entanto, o gato rescende a uma misteriosa espiritualidade, como os ídolos que falei antes. Passa quase imperceptível pelo nosso espaço, não atropela as coisas, tem o andar macio e cauteloso, é ágil como o maior dançarino do mundo, quando trata de se defender do agressor. Não é fácil amar e entender essa espécie, muita gente superficialmente liga a sua imagem às nações satânicas. Tampouco é um ser disponível. O gato se impõe - este que agora contemplo e tento desenhar instalou-se na minha vida de forma sub-reptícia e sagaz. Construiu o nosso interesse sobre ele, sobrevivente que foi de uma família felina que a caseira atraiu com leite e sobras de comida. Veio a mãe, porque tinha fome, e a casa estava aberta de comida. Deu cria e sumiu; assustada por um de nossos cachorros que sustenta o preconceito da velha inimizade entre cão e gato. Das crias, as fêmeas foram dadas a terceiros, este macho que chamamos Rufino foi ficando. Aprendeu a sobreviver no ambiente perigoso para ele. Quando o cão tradicional chega, ele se empoleira numa viga que sustenta o telhado da casa e, ainda como um ídolo, assume impassível a sua segurança, enquanto o cão, martirizado de não alcançá-lo, chora e se desgasta em saltos ineficazes. Quando acendo o fogo da lareira de roça, ele se aproxima e namora as chamas. Seus olhos cintilam, esfrega-se nas minhas pernas, eu pressinto que ele está feliz.


Gosto de apalpá-lo, para sentir a natureza de material única. É macio e flexível, entre o sólido e o líquido denso, parece não ter vísceras. Se o contato é desajeitado, projeta suas unhas, e é capaz de ferir. Diante do fogo ele se porta como um oficiante. Transpassa as brasas com o olhar, contorna o calor com evidente atração e, no fim da noite, ou no dia seguinte, caminha sobre o borralho, como o personagem da lenda.

Agora acordou. Surpreendi-o me espreitando por detrás do cordame das velas do barco. Enquanto escrevi esta frase ele sumiu, como um fantasma, de tal forma imperceptível que chego a duvidar que tivesse existido realmente. De repente vai se insinuar, quando melhor lhe aprouver, indiferente à minha inquietação. Vai avaliar a área, e se instalar no lugar mais certo. Vai esperar a noite e o fogo, se possível vai se enfiar sob as nossas cobertas, procurando sempre o calor. Então, como coisa morta de tão integralmente embriagado de repouso, curtirá o silêncio desativado da casa. Nossos sonhos, deslizantes na sombra, arrepiarão seu pelo como um toque imantado.


Crônica de Walmir Ayala
(1933-1991)
Escritor e poeta gaúcho.

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Esta crônica foi enviada por Luciana C. Bastos, colaboradora de UBAV-Brasil.

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