sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

“SEXTA CRÔNICA” - - “Quero comprar uma árvore” - - De Walmir Ayala

“SEXTA CRÔNICA”
- “Quero comprar uma árvore” -


- Walmir Ayala -


(Flamboyant amarelo)
Na estrada florescem os flamboyants e eu quero comprar uma árvore. Se hoje me faltassem todos os outros desejos, me sobraria este, de comprar uma árvore. Com direito a pássaros e brisa da tarde, mas, sobretudo uma árvore em flor, para prazer visual. Os desejos nos conservam vivos, disse alguém, e passei a prestar atenção nisso. Enquanto desejava alguma coisa, eu me reforçava, eu ia adiante, eu nem pensava na morte. Ultimamente, ter uma árvore é o meu maior desejo. Como as árvores não são vendidas isoladamente, eu imagino um terreno pequeno, uma casa modesta e uma árvore. Bastaria para mim uma árvore de rua, dessas que pertencem à comunidade. Mas que eu pudesse ver e acompanhar durante as estações, com cores e sombras as mais variadas.


(Amendoeira)
Há muitos anos morei numa rua com amendoeiras, uma delas batia na sacada do meu apartamento, espiando minha vida. De manhã ela trazia uma festa de pássaros e eu acordava em paz, despertado por aqueles ruídos que eram o pulsar da natureza. Durante anos acompanhei a existência daquela árvore, e me maravilhava com as cores de suas folhas. As folhas faziam de flor naquela árvore sem flores, porque iam do verde ao vermelho, eram de repente douradas, ou de um amarelo tênue. Era sempre uma surpresa, e eu gostava de ver a rua coberta do ouro daquelas folhas, em certas fases do ano. Estou certo de que a minha vida ficou melhor com aquela companhia, e acho que vem daí a origem deste desejo de ter uma árvore em flor, como aqueles flamboyants da estrada.

Mas, enquanto eu não posso ter uma árvore inteiramente minha, aprendo a curtir as árvores que passam por mim, ou pelas quais eu passo. E até parece que são minhas todas essas árvores. Com a força do meu coração, sinto que são minhas, porque outra coisa que aprendi é a enriquecer o sentido de propriedade. Tudo o que vejo e amo é meu, sem necessidade da posse, do desgaste que vem na base dos amores vorazes. Assim, me distraio olhando nas vitrines todo aquele apaixonante supérfluo, e me delicio em contemplar e assimilar o instante de sua presença, como uma oferta real. Fico feliz, passo adiante, e muitas vezes digo de mim para mim: “Tal coisa acaba de ser minha e eu nem preciso carregar”. É assim, acumular matéria das coisas é um estorvo na viagem. O bom é andar com um mínimo e participar de tudo, sem mágoa, sem sensação de pobreza, porque pobre é quem tem a alma pequena.

Hoje eu queria comprar uma árvore, mas como disse um velho indígena norte-americano, há mais de um século, coisas como uma árvore não podem ser compradas, como não se pode comprar o ar, as nuvens e as estrelas. Mas se pode amar tais verdades inalcançáveis, e nesse amor reside o mais perene conceito de propriedade, aquela que ninguém nos tira porque tem as raízes plantadas no coração.


 
Flamboyant vermelho



Autor: Walmir Ayala (1933 - 1991) - O autor considerava-se poeta, mas sua carreira não se limitou à poesia e dedicou-se a outros gêneros culturais. Foi também jornalista, romancista, escreveu contos, crônicas, peças de teatro para adultos e crianças, público este que dedicou mais de noventa obras. 

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