quarta-feira, 23 de novembro de 2016

QUARTA CRÔNICA APRESENTA: 'A MESA DA COZINHA' - De Martha Medeiros

É sempre um prazer lembrar em nosso espaço, destinado a uma boa crônica, o nome da escritora gaúcha Martha Medeiros. Cronista de palavra fácil e sensível. Capaz de encontrar em pequenos detalhes do dia a dia uma boa história pra contar. Na crônica de hoje ela fala da importância de um objeto de cozinha, a mesa. Um lugar especial que todos têm em suas casas e onde se vive momentos importantes.
  Achei interessante socializar essa passagem do livro ‘Felicidade Crônica’, da autoria de ‘Martha Medeiros’ e publicado pela ‘Editora L & PM’. Aproveitem o dia começando bem e lendo uma deliciosa crônica.
Tim-Tim!
Neo Cirne


A MESA DA COZINHA

- Crônica de Martha Medeiros -


 A mesa da cozinha é o local sagrado das conversas durante a madrugada, quando os irmãos chegam da balada com a fissura por um gole de Coca-Cola e com histórias saindo pela boca: com quem ficaram ou não ficaram, o trajeto que fizeram para driblar a blitz, o preço da cerveja, e aí as amenidades evoluem para a filosofia, a necessidade de extrair da vida uma essência, a tentativa de escapar da insignificância, até que o dia começa a clarear e o cansaço avisa que é hora de ir pra cama.

Para alguns casais, a mesa da cozinha já serviu de cama, aliás.

A mesa da cozinha ouviu confissões de amigas que juraram guardar segredo, mas não conseguiram. O amante, a traição, a culpa, o nunca mais. A mesa escuta e não espalha, reconhece a inocência das fraquezas alheias e se sente honrada por ser confidente de tantas vidas.

A mesa da cozinha escutou o que os convidados não comentaram na sala, viu estranhos abrirem a geladeira atrás de algo mais substancial que canapés, suportou o peso de quem resolveu sentar sobre ela para fumar um cigarro antes de voltar para o burburinho da festa.

A mesa da cozinha já foi o cenário de toda espécie de solidão. Mas também de encontros. Viu o casal de namorados preparar, sem receita, seu primeiro salmão ao molho de manga, viu o menino nervoso abrir a sua primeira garrafa de vinho para uma menina não menos nervosa, viu um beijo secreto entre primos cuja família comemorava o Natal em torno da árvore, viu o marido se declarar para a esposa viciada em grifes ao surpreendê-la com um simples avental amarrado em torno da cintura.

A mesa da cozinha já viu a mãe preparar a primeira mamadeira às três da manhã, com cara de sono e felicidade. E o pai da criança, a caminho da área de serviço, segurando uma fralda suja com a expressão de nojo, mas também de orgulho. A mesa da cozinha viu a funcionária sentar no banquinho e, durante uma trégua entre um suflê e um pavê exigido pela patroa, acariciar a sua primeira carteira de trabalho.

A mesa da cozinha viu o cachorro xeretar lata de lixo e o gato lamber os restos que sobraram da louça no jantar.

A mesa da cozinha viu a dona de casa tentar escrever num diário, coisas que ela sente e não tem com quem dividir, a não ser com a luz amarelada do abajur.

A mesa da cozinha testemunhou lágrimas que foram secadas com pano de prato. A mesa da cozinha possui manchas que contam histórias. A mesa da cozinha tem um pé frouxo que ninguém se lembra de aparafusar. A mesa da cozinha já amparou carteados, velas acesas em dia de temporal, cinzeiros abarrotados, a roupa passada e dobrada antes de ir pra gaveta.

A mesa da cozinha viu tudo.




(Escrito por Martha Medeiros em 26 de maio de 2013)