segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"MEMÓRIA CRÔNICA" - - O BONDE DA PRAÇA - - De Walmir Ayala

O BONDE DA PRAÇA

- Walmir Ayala - 

“MEMÓRIA CRÔNICA APRESENTA O BONDE DA PRAÇA, UMA CRÔNICA CHEIA DE ENCANTAMENTO, LIRISMO E LEVEZA QUE NOS ARREMETE AO TEMPO DE CRIANÇA, ONDE COM UM POUCO AREIA E PALITOS DE FÓSFORO CONSTRUÍAMOS CASTELOS. 
^
(JÁ IMAGINARAM QUE FESTA SERIA COM UM BONDE NA PRAÇA?”)




As coisas da praça são: menino, soldado, namorado, cachorro, folha de árvore, gangorra, pardal, grama, anciões e monumentos. Todo mundo sabe disso. Mas todo mundo se espantou quando, num belo dia, surgiu um bonde instalado no meio da praça. Ninguém viu chegar, ninguém sabe como. As crianças, que acreditam no inacreditável, embarcaram e fingiram viajar naquele bonde. O bonde ficou parado e feliz. Não há destino mais justo para um velho bonde, do que ser pintado de novo e ficar numa praça como bicho domesticado que lambe as mãos do dono. O velho bonde só faltava ter mãos para ajudar os meninos a subirem nele.

Um dia a notícia correu na praça como o vento. Tem teatro no bonde! No lugar onde ficava o motorneiro uma moça (ou fada) instalou um palquinho. A criançada sentou nos bancos como se fosse viajar, e a gente grande ficou de fora, espiando. Apareceu um história de princesa e de dragões, de ventos mágicos e florestas de espinhos. Depois veio uma de cangaceiro e de pavão misterioso. Veio a de bichos do Brasil e de outros que nem se imagina, deste e de outros possíveis mundos.

De noite, depois que todo mundo foi embora, o bonde fechou os olhos. Chegaram algumas pessoas sem destino e se abrigaram nos seus corredores. De manhã cedo chegaram os pardais, os mesmos que se assustaram no dia em que o bonde apareceu na praça. Agora os pardais já se acostumaram, já conhecem o bonde e sua utilidade pacífica. De repente passa um menino correndo.

- Vamos brincar de bonde?
- Brincar de quê?
- De viajar.
- Para onde?
- Para qualquer lugar!
- Para a terra do fogo.
- Para a Ilha de Marajó.
- Quero ir para a Ilha dos Tesouros!
- Então vamos.

Como é que o bonde pode ser tão bonito! Os meninos sentados em seus bancos, sorrindo, crentes de que adiante vai surgir a ilha do tesouro, com piratas e castelos mal-assombrados. De repente a praça é um quintal mágico. A princesa do teatrinho do dia anterior desce misteriosamente e pousa no ombro do menino que dirige a viagem para a ilha do tesouro. Todos aplaudem a nova passageira. Os pardais revoam em torno, pensando que o bonde é uma grande flor, acolhedora e doméstica. Todos chegam afinal à ilha do tesouro, uma ilha que só as crianças veem. Todos consultam mapas e desembainham espadas para enfrentar os fantasmas dos capitães mortos há muito tempo.

O bonde pensa que é uma grande e invencível caravela, tangida pelo vento generoso do mar aberto. Todos cavam e retiram arcas cheias de moedas de ouro. Tudo é possível naquela aventura. O bonde não se moveu, mas é como se tivesse realmente dado a volta ao mundo.

Até que a tarde cai e tudo se repete. Nossos heróis voltarão para suas casas, para o sono tranquilo. O bonde recolhe as suas velas fantásticas e imaginárias. A noite chega recolhendo os pássaros ao ninho, instalando sombras entre as árvores, esvaziando a praça como quem deixasse cair o pesado ‘pano de boca de um palco’ sem personagens.

Um bonde numa praça é raro como um sonho, e nos permite muitos sonhos. Aliás, é só ter olhos de acreditar e de esperar, para que a ilusão instale em nossa vida a maquininha de alegria. Onde a ilusão é irmã inseparável da realidade, podem crer.

Um bonde numa praça é raro como um sonho, repito. Um sonho que se repete sempre, mas nunca é inteiramente compreendido. Amanhã tem outra viagem, vamos? - Para onde?







Esta linda crônica foi escrita por Walmir Ayala, (1933-1991), escritor gaúcho e de grande produção literária. Recebeu vários prêmios por sua extensa obra.

UBAV-Brasil: - Parabéns aos escritores brasileiros e à cultura nacional. Agradeço o envio da matéria por Luciana-Rio que nos ajudou a compor essa matéria. Aproveito para pedir aos amigos que nos enviem aqueles contos, poesias e matérias que julgarem ser merecedoras de publicação. Vocês podem enviar pelo e-mail do projeto ou pelo nosso what's up de prefixo (71).  Aproveito para informar que nosso telefone de prefixo (48), a partir do dia 06 terá um 9 antes do número normal. 

Um abraço a todos!

Tim-Tim!
Neo Cirne

Colunista de UBAV-Brasil