segunda-feira, 12 de setembro de 2016

“A PRIMEIRA MENSAGEM” - CRÔNICA DE WALMIR AYALA - Apresentação e comentário de Neo Cirne


“A PRIMEIRA MENSAGEM”



Meus amigos, bom dia! Para esta segunda-feira, dia 12/09, escolhemos uma crônica, bem profunda e abrangente, que fala de um assunto que afeta a todos nós, a taxação dos produtos essenciais como supérfluos. Parece um assunto pesado, mas creiam que o autor torna-o alertador e bem-humorado. O nome do escritor: Walmir Ayala - (1933-1991), escritor gaúcho, consagrado por sua vasta atividade cultural.
Aproveito para desejar uma boa leitura e uma semana maravilhosa, cheia de conquistas positivas e muita paz para o nosso país. Vamos à crônica que selecionamos pra vocês.





- O AR, A CAVERNA, A ÁGUA E O FOGO -

O ar, a caverna, a água, o fogo, o pão, a carne e a pele do bisonte, são as únicas coisas que não são supérfluas para a sobrevivência do homem, daí o perigo das taxações sobre o supérfluo, porque pode nos levar inexoravelmente para a Idade de Pedra. Tudo que a ciência e o progresso acrescentaram ao mínimo indispensável à vida pode vir a ser considerado como supérfluo. O que não quer dizer que a grande maioria, de baixo poder aquisitivo, venha a ter esse mínimo a custo inferior ao da taxação atual. Os remédios, por exemplo, não podem ser considerados supérfluos, mas têm preços de artigo de luxo.

Mais uma vez recorremos a imagem pré-histórica: temos que nos socorrer nas ervas, nas simpatias, nos medicamentos caseiros, nas benzedeiras, já que a indústria da medicina é uma das mais caras que conhecemos. Passemos aos dentistas, só nos resta deixar perder os dentes, como coisa supérflua, pois um tratamento dentário cabe em muito poucos rendimentos. Vejamos o ensino pago, há muito que tem preço de artigo supérfluo. As mensalidades, o livro didático, os reajustes, os uniformes, tudo engolindo boa parte dos recursos domésticos e obrigando os pais a acabar encarando como supérfluos, já que são proibitivos. A escola pública, por sua vez, não assimila toda clientela disponível de alunos, e só nos resta alfabetizar os nossos filhos em casa, ou ensinar-lhes uma nova saída, como a de Robson Crusoé, reconstruindo a vida do nada tecnológico, ou seja, de tudo que é natural.

A preço proibitivo nos chega tudo que é tocado pela mão sinistra do chamado atravessador, já que o produtor vende barato e nós estamos condenados a pagar caro. O atravessador considera, certamente, artigos como o feijão, o arroz, o trigo, a batata, os ovos, a cebola, o alho, as verduras, os cereais, a carne e aves como supérfluos. Apesar disso ninguém consegue pôr a mão no atravessador, e todo mundo sabe que ele existe e os estragos que faz. Chega a pouco mais de uma centena a lista dos supérfluos na qual estão os cigarros, bebidas alcoólicas, pneus, e outras mercadorias de largo consumo popular. Entre eles alguns artigos que só uma minoria pode consumir, como o champanhe, o caviar e os perfumes. Acontece que essa minoria pouco se preocupa com as taxações, pois sempre terá meios de garantir o seu perfume escocês e seu perfume francês. Os consumidores de cerveja é que estão chiando, e lhes creditamos razão.
Mas vá lá que se admita que 100 ou 150 itens do supérfluo, perguntamos: e o que não é considerado supérfluo se beneficiará de taxação inversa, atingindo um nível mais justo numa hora aflitiva? Baixará o custo do ensino pago, dos remédios dos gêneros de primeira necessidade? Ou deixará a triste maioria dos desfavorecidos olhando esses benefícios necessários como coisa considerada supérflua, já que inatingível.

Sem dentes, sem saúde, e subnutridos, só nos resta a caverna, a nudez, o chá, a pesca e a caça, enquanto as poluições nos permitem desfrutar da natureza como fonte de vida. Enquanto os poluidores não extinguem a fauna, a flora os rios e as montanhas considerando-as como coisa supérflua e condenada.

O melhor seria não taxar os supérfluos, mas criar uma lei de redução de preços do que deve ser considerado necessário, e indispensável, pedindo contas à indústria farmacêutica, aos donos do ensino pago, aos médicos e aos dentistas, aos editores do livro didático, sobre a razão de suas taxas de custo e qual a proporção de seus lucros. Talvez tivéssemos algumas respostas conclusivas se mergulhássemos no assunto. Isso antes de tomarmos nossa jangada rumo à ilha de Robson Crusoé, onde nada é supérfluo. 
A menos que nos tirem a jangada por ser supérflua.

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Texto de Walmir Ayala, extraído do livro “Walmir Ayala - Crônica para Jovens”, da editora Global.



Comentário de UBAV-Brasil

Foi com muito prazer que apresentamos essa crônica que continua atualíssima. A sequência de escritores cronistas que a Editora Global apresenta é de grande qualidade, e queremos recomendar a leitura dos seguintes mestres: Walmir Ayala, Ferreira Gullar, Rubem Braga, Affonso Romano de Santana, Marina Colasanti, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Marcos Rey e Ignácio de Loyola Brandão.

A leitura é uma atividade maravilhosa e completa. Ela aprimora a nossa cultura geral proporcionando o entendimento e o contato com várias culturas diferentes. Ela nos permite realizar viagens incríveis sob o olhar do escritor. Lendo, nós nos tornamos mais reflexivos, capazes de formar uma ideia real dos fatos. Com a leitura, falamos e escrevemos melhor, além de que quem lê muito, começa a refletir mais rápido.
Outra vantagem da leitura é o aumento do vocabulário, cada vez mais minguante no comportamento do jovem moderno. A leitura, assim como os aplicativos do smartphone ou dos tablets, pode ser uma forma divertida de contemplar a ideia bem humorada do autor. Quem lê se expressa melhor e entende melhor as pessoas.
Finalmente, quem lê fica sempre informado sobre o que está acontecendo no mundo e na sua região. O jornal impresso e as revistas são os tipos mais comuns de leituras informativas.

Para o meu gosto pessoal, acho o escritor de crônicas o mais contemporâneo. Capaz de dizer em poucas palavras muito do que desejávamos saber. Ele quase sempre agrega em seus textos pitadas alegres, por mais sérios que seja a sua forma de ver uma situação, tornando, assim, mais agradável a leitura.

A leitura é um grande convite para recomeçar a entender a vida! Vamos nessa! Selecione um bom livro para ler e descansar sua mente das atividades desgastantes do dia.

Boa leitura!

Tim-Tim!


Comentário: Neo Cirne

Colunista de UBAV

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