sexta-feira, 5 de agosto de 2016

MANIA CRÔNICA APRESENTA: "QUERO COMPRAR UMA ÁRVORE" - - Crônica de Walmir Ayala - - PROMOÇÃO LITERÁRIA

 MANIA CRÔNICA

QUERO COMPRAR UMA ÁRVORE


- Crônica de Walmir Ayala -


Na estrada florescem os flamboyants e eu quero comprar uma árvore. Se hoje me faltassem todos os outros desejos, me sobraria este, de comprar uma árvore. Com direito a pássaros e brisas da tarde, mas, sobretudo uma árvore em flor, para o prazer visual. Os desejos é que nos conservam vivos, disse alguém, e eu passei a prestar atenção nisso. Enquanto desejava alguma coisa, eu me reforçava, eu ia adiante, eu nem pensava na morte. Ultimamente ter uma árvore é o meu maior desejo. Como as árvores não são vendidas isoladamente, eu imagino um terreno pequeno, uma casa modesta, e uma árvore. Bastaria para mim uma árvore de rua, dessas que pertencem à comunidade. Mas que eu pudesse ver e acompanhar durante as estações, com suas cores e sombras mais variadas.

Há muitos anos morei numa rua com amendoeiras. Uma delas batia na sacada do meu apartamento, espiando minha vida. De manhã ela trazia uma festa de pássaros e eu acordava em paz, despertado por aqueles ruídos que eram o pulsar da natureza. Durante anos acompanhei a existência daquela árvore e me maravilhava com as cores de suas folhas. As folhas faziam de flor naquela árvore sem flores, porque iam do verde ao vermelho, eram de repente douradas, ou de um amarelo tênue. Era sempre uma surpresa, e eu gostava de ver a rua coberta do ouro daquelas folhas, em certas fases do ano. Estou certo que a minha vida ficou melhor com aquela companhia, e acho que vem daí a origem deste desejo de ter uma árvore em flor, como aqueles flamboyants da estrada.


 Mas, enquanto eu não posso ter uma árvore inteiramente minha, aprendo a curtir as árvores que passam por mim, ou pelas quais eu passo. E até parece que são minhas todas essas árvores. Com a força do meu coração, sinto que são minhas, porque outra coisa que aprendi é a enriquecer o sentido de propriedade. Tudo o que vejo e amo é meu, sem necessidade de posse, do destaque que vem na base dos amores vorazes. Assim me distraio olhando nas vitrines todo aquele apaixonante supérfluo, e me delicio em contemplar e assimilar o instante de sua presença, como uma oferta real. Fico feliz, passo adiante, e muitas vezes digo de mim para mim: “Tal coisa acaba de ser minha e eu nem posso carregar”. É assim, acumular a matéria das coisas é um estorvo na viagem. O bom é andar com um mínimo e participar de tudo, sem mágoa, sem sensação de pobreza, porque pobre é o que tem a alma pequena.

Hoje eu queria comprar uma árvore, mas como disse um chefe indígena norte-americano, há mais de um século, coisas como árvores não podem ser compradas, como não se pode comprar o ar, as nuvens e as estrelas. Mas se pode amar tais verdades inalcançáveis, e nesse amor reside o mais perene conceito de propriedade, aquela que ninguém nos tira porque tem as raízes plantadas na terra do coração.

Texto: do livro Walmir Ayala/Crônicas para Jovens/ Editora Global



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Walmir Ayala nasceu em 1933 e morreu em 1991. Sua vida parece curta diante da sua produção intelectual, que, além dos escritos propriamente literários, inclui uma volumosa atividade de organização de cerca de 20 antologias poéticas, inluindo-se aí a poesia completa de Cecília Meireles e uma extensa antologia da poesia moderna brasileira organizada a quatro mãos com Manuel Bandeira.
Coordenou ainda numerosas publicações sobre artes visuais, recebeu vários prêmios por sua extensa obra e representou o Brasil no exterior em diversas missões culturais. Como se não bastasse foi cronista constante de jornais e revistas entre as décadas de 1950 e 1990.




Walmir Ayala é um mestre digno de ser lembrado por UBAV-Brasil, em sua coluna Mania Crônica, na próxima apresentação destacaremos a presença do grande mestre mineiro, Rubem Alves. Aguardem!
Mania crônica será apresentada de 15 em 15 dias. Aproveitem os nossos mestres da literatura brasileira.
Tim-Tim!

Neo Cirne
Colunista de UBAV