segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A MINHA INESQUECÍVEL ÁRVORE - - Crônica de Neo Cirne

A MINHA INESQUECÍVEL ÁRVORE


A chegada do mês de setembro tem um sabor especial, não por ser o mês de meu natalício, mas, sim, por observar a transformação que o planeta passa ao desgarrar-se das entranhas do inverno transformando-se na Primavera, a “Estação das Flores”.
Um grande encantamento abriga a lembrança do Dia da Árvore, ser vivo que nos dá fruto, sombra, ar puro e que significa, desde o início dos tempos, a própria ‘essência da vida’.

Muitas vezes, em nossos passeios, passamos por árvores lindas e não observamos sua beleza e nem o quanto ela é importante e acolhedora. Imagine-se passeando num lindo bosque, curtindo o cenário e observando a natureza abrir-se em flor após o recolhimento natural provocado pelo Inverno e, de repente, descansar por alguns instantes à sombra de uma árvore frondosa, que muitas vezes levou dezenas de anos para tornar-se adulta. É maravilhoso observar a multiplicidade de cores e aromas que a Primavera oferece. Das quatro estações climáticas, é, sem dúvida, a mais bela. 


(A Velha Figueira de Florianópolis)

Só para vocês terem uma ideia da importância das árvores, a Figueira que está localizada na Praça XV de Novembro, em Florianópolis tem seu registro datado de 1871, ou seja, possui 145 anos de idade. A velha figueira virou símbolo da cidade, reza a lenda que as moças que derem três voltas seguidas em torno da Velha Figueira, logo arrumam casamento. Ah! Serve para os homens também.

(Cajueiro de Pirangi)
Em Parnamirim, localiza-se o maior cajueiro do Brasil, também conhecido como ‘Cajueiro de Pirangi’, ele chega a ocupar um quarteirão inteiro e apoia seus galhos extensos no areal que o circunda. Ele foi plantado por um pescador em 1888, e está com 128 anos de idade. Outras árvores não vivem tanto assim, uma mangueira, por exemplo pode viver em torno de 60 (sessenta) anos, podendo chegar aos 70, se bem cuidada.



Quando eu era criança gostava de brincar numa grande mangueira, bem pertinho da minha casa. A árvore era dotada de uma capacidade incrível de socializar-se com as pessoas. Além de ofertar suas mangas doces que faziam a alegria das crianças que ali brincavam.

Por morar próximo dela, quando eu tinha um tempinho livre, corria que nem passarinho para chupar uma manga ou brincar nos seus galhos. Num deles, no mais forte, fixamos duas cordas que serviam de apoio para um gostoso balanço. A molecada fazia fila para, com 5 minutos para cada um, balançar-se ao vento seguro pelo robusto vegetal.

Aquele balançar parecia me conduzir às estrelas... Sentia-me um astronauta... Quando os meninos não estavam brincando eu amarrava as cordas do balanço num galho mais alto e a tábua, que usávamos como assento, era guardada por mim.  Meu pai tinha mandado um serrador fazer os furos para passar a corda e dar segurança aos navegadores do espaço. Eu era uma espécie de cuidador da grande árvore.
Vez por outra eu até conversava com ela. Abraçava-a como uma grande amiga. Por vezes, sorri e chorei debaixo de sua sombra. Em 62 sorri e vibrei ouvindo no rádio a vitória da seleção brasileira na campanha do Chile, quando nos sagramos Bicampeões Mundiais de Futebol. Poucos anos depois chorei, sentado perto dela, a separação dos meus pais.

Ela chegava a ser o meu confessionário, tendo ouvido de mim coisas que eu nem sonhava confessar ao padre da paróquia local. Não que fosse nada demais, mas ela, me ouvia, ouvia... ouvia. Não me dava nenhuma indulgência e nem, tampouco, nenhuma penitência, como faria o padre: - Reze dez Pais-Nossos e dez Ave-Marias e peça perdão a Deus. A árvore apenas ouvia o meu desabafo e a sua presença me acalmava.

Não queria chorar na presença de minha mãe, pois ela sempre me dizia que ‘Um homem não Chora’, hoje sei que é mentira! Um homem chora sim, só não chora na frente de outros pra não expor sua emoção, mas perto daquela mangueira amiga, onde me sentia acolhido, eu chorei e rezei algumas vezes. Até que um dia, nos mudamos para uma casa maior, no fim da rua.


No ano passado, após quase 60 anos sem vê-la, fui entregar uma premiação do Projeto UBAV, para a amiga Ingrid, que ganhara uns livros ou bombons, não lembro. Sei que ela estaria lá no Norte Shopping, no Grande Méier / Rio de Janeiro. O local era bem perto de onde eu havia passado minha infância. Passei pela antiga rua em que eu morei, observei atento, estava tudo mudado. 

O terreno que abrigava a velha mangueira agora estava cercado e com uma casa humilde. Parei o carro, saltei e fui em direção da casa. Olhando com atenção, observei no terreno uma linda mangueira. Cheguei a me emocionar, como quem vê um amigo distante, sumido há muitos anos. Uma senhorinha, vendo que eu olhava para o seu terreno, me perguntou: - O que o senhor deseja?  
Fiquei meio sem jeito e menti, respondi-lhe que era biólogo e que gostaria de identificar a sua mangueira - era tudo cascata. Eu queria mesmo era ver a mangueira.
Ela, gentilmente, me deixou entrar, acompanhou-me até o quintal e ficou me olhando meio apreensiva. Falei-lhe: - Que belo espécime vegetal!

Ela limitou-se a dizer: - É verdade! Dá mangas deliciosas do fim do ano ao carnaval.  

Abaixei-me peguei uma de suas folhas, observei o solo e seu tronco magnífico, porém observei tratar-se de uma mangueira jovem, ao seu lado um velho tronco servia de mesa de apoio, para as tardes de churrasco.

 Disse a senhorinha: - Esse velho tronco é muito útil, quando meus filhos e netos vem passar o domingo aqui. Boto uma piscina plástica para os menores e meus filhos assam uma carne gostosa, coloco uma toalha no tronco e nos servimos a volta dele.

O tronco era da velha mangueira que embalou meus sonhos agora, virara uma mesa para a churrascada de fim de semana. Porém, foi longo o seu ciclo de vida, talvez estimulada pelo bico de um pardal, deixando cair a semente de suas mangas maduras, nasceu um descendente, um novo espécime, capaz de ofertar a mesma alegria que eu senti há tantos anos.

Abracei-me ao velho tronco e à nova mangueira, colando meu rosto em seu caule, como se quisesse ouvir sua seiva a pulsar.  Assim, saudei-os.

Agradeci a gentileza da senhora, por me permitir entrar no seu quintal. Ela não deve ter entendido nada...rs. Do portão da casa, ainda olhei pra trás, tentando observar pela última vez a nova mangueira. Uma lágrima agradecida pelos folguedos de infância escorreu-me à face. Peguei o meu carro e parti.


Foi um grande dia! Dia de lembrar a importância de ter um grande amigo. Daquele que não precisa fazer alarde para dizer o quanto gosta de você, é muito bom.

As árvores são nossas grandes amigas. Elas nos dão frutos deliciosos, sombras refrescantes, espaço para abrigar os pássaros, galhos para embalar nossa alegria em deliciosos balanços, cenários inesquecíveis, sementes para reflorestar a terra, oxigênio para limpar os nossos pulmões. E tem mais ainda, depois que elas morrem, viram material de construção, lenha para a lareira que aquece os corações apaixonados, lindos móveis para decorar a vida ou uma simples mesa para apoiar panelas nos fins semana com o seu tronco, ainda cravado no chão como um marco de bondade.





Como é legal apreciar a natureza ou poder adotar um vegetal. Eles nos acompanham quase a vida toda. Algumas sobrevivem milênios, conforme matéria do site megacurioso, que vale a pena você ler para completar sua leitura. (http://www.megacurioso.com.br/biologia/32387-conheca-as-5-arvores-mais-antigas-do-planeta.htm)

Um Brinde À Vida, nosso projeto social, já realizou, ao longo dos anos, o plantio de milhares de mudinhas de lindos vegetais, eu diria mais de 50 mil pés de árvores. Nesses 10 anos de existência, nossos voluntários, principalmente professores, tiraram um dia especialmente para mostrar aos seus alunos a importância da preservação ambiental e como isso é importante para a continuidade da vida. Esta atitude social nos orgulha demais!

Setembro está chegando e a Primavera está batendo à porta. Vamos recebê-la com carinho, não se preocupe com os detalhes, “Ela nos receberá com flores”.

Hoje eu me lembrei de uma emoção pessoal, fornecida por uma ‘mangueira’, a árvore tem o seu nome científico de “Mangífera indica”. Sua origem veio da Índia, trazida pelos portugueses no século XVI. Eles, melhores do que passarinho ou borboleta, disseminaram pelo planeta o delicioso fruto, bagunçando o ecossistema por onde passavam. Quase todo brasileiro tem bem vivo na lembrança o sabor de chupar uma manga sobre os pés de uma bela mangueira.

A Primavera é a continuidade da vida!

Viva a Árvore! Viva a Natureza e Viva Melhor!

Tim-Tim!




Fotos meramente ilustrativas

Texto:
Neo Cirne
Colunista de UBAV-Brasil

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