sábado, 30 de julho de 2016

A SOLIDÃO E O MOSQUITO - - Uma crônica de Neo Cirne

A Solidão e o Mosquito



Sempre convivi bem comigo mesmo e com as pessoas que participaram da minha vida. Eu também sempre tive uma doce convivência com meus familiares e amores. Quis o destino que eu me tornasse uma pessoa solitária e que passasse a conviver intensamente com meus pensamentos, sonhos e lembranças. Os lugares em que morei sozinho eram cheios de vida e calor, sendo que Salvador foi “the best of all” (o melhor de todos) em matéria de alegria e luz. Lá, por morar em frente ao mar, compartilhava da alegria dos banhistas e me acostumei com o cantar das ondas do mar. Morava a 40 passos da areia de uma praia deliciosa, a Praia de Ipitanga. Era uma praia encantadora, um convite a uma boa caminhada e aos prazeres do banho de mar em águas quentinhas.
O mar não me deixava conviver com o silêncio, muitas vezes ficava na rede escrevendo meus textos ou pintando, ouvindo as batidas da onda sobre a areia macia. Fora isso, a cidade de Salvador naquela época era um convite permanente à vida. ‘Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia!’, dizia Caymmi e eu também.


Os tempos mudaram. Por opção, o Sul do país passou a ser o meu novo objetivo de vida. Povo bom, lugares lindos e a melhor qualidade de vida do país, isso, para mim, que fui considerado um “homem do mundo” - por ter residido em várias cidades - era uma região que tinha tudo a ver com o que desejava: praias próximas, cidade limpa, saúde e segurança. Vim para passar apenas um ano e já estou aqui a cinco. Troquei a praia baiana por um lugar delicioso, que tem tudo que eu necessito e bem pertinho. Acontece que eu resido num prédio muito silencioso e que, em virtude do silêncio, passei a identificar todos os sons da vizinhança, tudo é perfeitamente audível. Sons que vão desde uma criança chorando no segundo andar, o acionamento de uma descarga do vaso sanitário no primeiro andar, uma porta barulhenta que se abre, um cachorrinho que late, um casal fazendo amor ou o vizinho da frente com seu pigarro matinal, um horror. Quem vive só, passa a compartilhar o barulho e o silêncio com os outros.


O inverno no sul, em 2013 e nesse ano de 2016 teve grande intensidade, dizem que vai piorar. Em virtude disso, pelo recolhimento caseiro, a sensação de solidão amplia o que chamo de ‘Sons do Silêncio’. Meus amigos diariamente me ligam de vários locais amenizando um pouco a sensação de me sentir só. Trocamos ideias, conversamos amenidades, às vezes (raramente) recebo a visita de um amigo que vem de passagem à Floripa. Sirvo de cicerone para mostrar os encantos da linda cidade, depois que eles se vão a solidão retorna. 
Nessa estação, com esse frio danado, a solidão pegou pesado. A crise econômica deve ter afetado a intensidade dos contatos. O telefone toca muito pouco, mas eu continuo ligando diariamente para aqueles amigos especiais, vamos trocando figurinhas e contando nossos ‘causos’. Parei de ver televisão, deixo espaço para assistir esportes, seja que modalidade for. (Acho que até ‘cuspe em distância’ hoje em dia eu ando assistindo). 
Não abro mão de ver um bom filme ou um bom seriado do NETFLIX, assisti alguns seriados fantásticos, tais como ‘Drop Dead Diva’, vi 78 capítulos de boas histórias e ‘Cosmos’ que mostrou numa linda temporada, composta de 13 capítulos, a origem do Universo num dos mais formidáveis exemplos da amplitude da divulgação científica.


A solidão anda me pegando de jeito e pega tão pesado que eu passo o dia ouvindo música e cantando para disfarçar. Mesmo quando estou trabalhando deixo uma música ao fundo para o trabalho correr melhor. Mas, confesso que “acho que estou pirando”, pois outro dia, me peguei conversando com um inseto. 
Inicialmente, julguei tratar-se de um mosquito, e assim o tratei. Meu apartamento é bem limpinho e ‘não tem mosquito’, as plantas que possuo exigem algumas gotas d’água, a não ser uma ‘árvore da felicidade’ que por ter quase dois metros, bebe um pouco mais. Mas, ‘mosquito’, por aqui nunca teve! 

Como sou curioso tentei em vão identificar o inseto sem graça que passava em frente a mim num voo desengonçado que mais parecia um helicóptero com um piloto bêbado. (Não era cupim! Hoje sei que era um Caruncho do arroz, assim me disseram)

Meu primeiro impulso foi matar o mosquito, como qualquer cidadão normal faria. Mas, eu havia acabado de orar, estava com a cabeça cheia de bons pensamentos e resolvi não ‘eliminar’ o intruso. O pior é que falei com ele e fiz-lhe uma ameaça, chamando-o de ‘Quito’
- “Quito, você pode ficar na minha casa, mas não quero saber de seus parentes!”
Ele aterrizou de seu voo cambaleante e pousou na parede. Peguei minha lupa para identifica-lo melhor. Ele parecia um pingente de brinco, não tinha mais que um centímetro, era marrom e parecia inofensivo. Mesmo assim, reafirmei a ameaça: - 
“- Quito, se aparecer algum parente seu eu lhe expulso daqui!”.

Alguns dias depois...

Vez por outra, eu via o Quito voando na cozinha, outras vezes, na sala. Ele gostava de luz e me atrapalhava ao pousar na tela da TV. Eu ia lá e o enxotava. Isso se repetia algumas vezes até que ele voltava para a cozinha.

Até que, no domingo passado, na hora do futebol, vi o danado na cozinha. Ele voava em direção à parede. Seu voo lento e desengonçado era certeiro, até brinquei com ele: 
- Ô Quito! Você bebeu minha cerveja? 
Evidente que ele não respondeu, senão vocês podiam me internar... rsrs. Ele simplesmente continuou seu voo enquanto eu fervia o leite. Era um olho no leite e outro no Quito, quando, de repente, avistei outro mosquito, um intruso, pousado na parede, agora eram dois. 
- Caramba! Outro! Exclamei.

Vi quando ele pousou e rapidamente se aproximou do outro que o esperava e, virando de costas, tocaram seus corpos unindo-se num lindo momento de amor... (Sou um cara romântico!)


O leite derramou! Ai, meu Deus, isso é o fim da picada! E ficaram ali alguns minutos, uns vinte ou mais. No intervalo do jogo voltei para ver se estavam lá e pasmem, estavam no maior ‘love’. Quando, nesse instante, apareceu um terceiro mosquito, igualmente desengonçado, indo em direção ao casalzinho.

- Deve ser o amante ou quem sabe, o marido. Vai dar merda! Pensei. 
Corri ao armário e antes que a confusão aumentasse, peguei uma lata de inseticida e acabei com os três.

Mal consegui ver o segundo tempo do jogo, primeiro por sentir remorso de ter matado três mosquitos (ainda bem que não eram os três mosquiteiros, eu teria levado a pior) e, segundo, por ficar preocupado com o aumento repentino da população de mosquitos. Preocupado, examinei a cozinha em busca de outros, procurei nos quartos, na sala, nada encontrando. Enfim, olhei todo apartamento e estava tudo ‘clean’, limpo. Não havia vestígios de parentes indesejáveis do Quito.


Ontem, eu assistia a um documentário do Sport TV, que falava das Meninas de Ouro do Vôlei de Praia, a dupla Jaqueline e Sandra, medalhistas de ouro em Atlanta 96. Eu estava adorando lembrar aquele momento do esporte quando apareceu mais um ‘meliante voador’. Eu, por causa do frio, estava todo enroscado no sofá, mesmo assim, levantei peguei-o com um lenço de papel e atirei ao vento, não o matei. Voltei para o sofá cheio de raiva. Pronto acabou!


Minutos depois, num trecho da entrevista, a Sandra dava seu depoimento à beira mar, quando um ponto preto surgiu, caminhando na tela. Peguei, então, uma almofada e arremessei na TV, que tombou, quase quebrou. Corri, peguei a TV, colocando-a no lugar. Disse um palavrão, coisa não muito comum, voltando a assistir a entrevista e vi que o bichinho estava lá, caminhando, bem ao fundo da imagem. Só ai, percebi que era um pombo que fazia parte da gravação, ele ciscava na areia da praia e eu, maluco que sou, pensando que era outro mosquito, quase destruí a TV.

Hoje, sábado, a TV amanheceu com a imagem trêmula, deve ter sido da pancada que tomou. Levei-a para o consertar, mais um prejuízo.

 Ficarei sem TV no fim de semana! Tudo por causa daquele mosquitinho safado! Pior é que a solidão é tanta que senti falta do Quito... (ou seria Quita?)... Melhor deixar pra lá!



   Crônica de Neo Cirne
    Colunista de UBAV-Brasil


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