quarta-feira, 22 de junho de 2016

O PAPAGAIO QUE SABIA DIZER 'AVE MARIA!' - UMA HISTÓRIA DE FÉ - Por Mariana Morazzani Arráiz

O PAPAGAIO QUE SABIA DIZER "AVE MARIA"



 O ambiente alegre e festivo de uma antiga feira medieval era contagiante: centenas de pessoas, adultos, jovens e crianças, moviam-se continuamente, falavam, cantavam, gesticulavam, discutiam preços ou simplesmente se distraíam. Iam lá para comprar? Para comer? Ou só para ver as novidades? Tudo isso e algo mais. Nessas feiras podia-se encontrar de tudo.
Em uma tenda, um estrangeiro de longa barba escura vendia tecidos preciosos das mais variadas cores; ao lado, um ferreiro demonstrava a qualidade de suas facas (”Veja, freguesa, nunca perdem o fio!”); mais adiante, um gordo e bonachão açougueiro, com avental todo salpicado de vermelho, pesava uma porção de carne numa balança de precisão duvidosa.
E além das vozes e idiomas que se misturavam, das crianças que choravam e dos vendedores que apregoavam suas mercadorias, sons de todos os instrumentos enchiam os ares, pois música é o que não faltava nessas ocasiões…
Naquele dia, caminhava em meio à colorida e movimentada multidão um homem barbado de meia-idade, baixa estatura, um tanto calvo e bem magro. Trajava uma surrada túnica marrom, com um cordão atado à cintura, e parecia ser muito estimado na região, pois quase todos o cumprimentavam cordialmente, e ele respondia da mesma forma. Por uns instantes, parava para conversar com o padeiro e metia dois pães na grande sacola que trazia; pouco além, pegava um queijo; mais alguns passos, uma dúzia de maçãs; noutra tenda, três repolhos. Mas – coisa curiosa! – ele a ninguém pagava um centavo sequer.
Como explicar isso? É que o bom homem, um irmão leigo franciscano conhecido pelo nome de Frei Bartolomeu, recolhia doações para seu mosteiro.
Depois de percorrer boa parte da feira e ter sua sacola quase cheia, foi despedir-se de um antigo conhecido. O velho Simão não comercializava alimentos nem tecidos, mas sua loja estava sempre cheia de gente curiosa. Ele vendia aves canoras e decorativas.
- Bom dia, Simão! Que novidades você tem hoje?
- Olá, Irmão Bartolomeu! Infelizmente o senhor chegou tarde… Hoje cedo vendi um belo pavão para a senhora condessa. Que animal mais lindo! Estou certo de que o senhor teria ficado encantado de vê-lo.
Enquanto falava, o velho tirava um pequeno papagaio de dentro de uma gaiola e o punha sobre a mesa. O pássaro, no entanto, ficou parado, sem fazer qualquer tentativa de fuga. Parecia um pouco tonto, pois balançava- se para um lado e para outro.
- E este bichinho? – perguntou o monge.
- Ah, este está muito doente, acho que vai morrer, e não tenho paciência nem tempo para cuidar dele. Estou pensando em torcer-lhe o pescoço, para abreviar-lhe o sofrimento.
- Oh, não faça isso! Por que não o dá para mim?
- Ora, Irmão, sei que muitas vezes falta comida aos pobres monges, mas o senhor estará querendo cozinhar um papagaio? – perguntou surpreso o velho Simão.
- Claro que não! Dê-me a avezinha, eu vou alimentá-la e tratar dela.
- Pois não, pois não, Irmão. Nada tenho a perder com isso. Aqui está. É até um favor levá-lo.
Isto dizendo, entregou-lhe o pássaro enfermo.
Sob os cuidados do bondoso irmão, o papagaio refez-se e cresceu, revestindo-se de uma nova e vistosa plumagem verde. E logo, fazendo jus aos atributos de sua raça, começou a imitar o que falavam os monges. Animado, irmão Bartolomeu começou a ensinar-lhe a Ave Maria.
- Que é isso, Irmão? Quer ensinar catecismo ao pássaro? – gracejou outro monge.
- Ora, não é bonito ver o animalzinho repetir a Saudação Angélica?
E falava alto: “Ave Maria!” E o papagaio repetia com seu “sotaque” característico: “Ave Maria!”
Passando por ali nesse momento, o Padre Guardião do convento também sorriu ao ver o Irmão Bartolomeu no seu labor de ensinar o pássaro. E o preveniu:
- Cuidado com seu “aluno”, Irmão, pois esta tarde anda pelo vale Jacques, o falcoeiro!
De fato, olhando pela janela, Irmão Bartolomeu pôde vê-lo à distância. Ele tinha sérias razões para não gostar do falcoeiro. Jacques sabia que em volta do mosteiro franciscano sempre voavam pássaros de várias espécies, pois o lugar silencioso e pacífico lhes servia de abrigo. Assim, quando a caça andava fraca nos vales da região, ele terminava seu percurso próximo ao convento, certo de encontrar presas fáceis e desavisadas nos telhados dos frades.
Muitas vezes Bartolomeu tinha visto as mais brancas pombas perecerem despedaçadas nas garras dos falcões. Mas o que mais lhe doía era o fato de Jacques ser um mau cristão que freqüentava tabernas e escarnecia da fé popular.

Estava o frade imerso nessas lembranças, quando de repente um aviso o chamou de volta à realidade:
- Cuidado, Irmão Bartolomeu, o papagaio fugiu!
Ao voltar-se surpreso, viu o vulto verde saindo pela janela oposta. Ainda gritou, chamando-o de volta, mas ele já voava contente por cima das árvores. Péssima hora para escapar… O bom frade já via, ao longe, um grande falcão que, voando em círculos à procura de alguma presa, subitamente avistou o papagaio e se precipitou sobre ele como uma flecha. Em vão o Irmão Bartolomeu procurou adverti-lo, o pequeno pássaro nem sequer ouvia sua voz.

Quando este, afinal, deu-se conta do perigo, já era tarde demais: o falcão já estava sobre ele. Apavorado, o papagaio não teve senão a reação instintiva de gritar tão forte quanto podia.
- Ave Maria!
Qual não foi a surpresa de todos quando, mal esse brado saíra do bico da espavorida ave, viram o falcão precipitar-se morto por terra, como se tivesse sido fulminado por um raio!..


 Autora: Mariana Morazzani Arráiz
da Revista Arautos do Evangelho, Maio/2006, n. 53, p. 46-47)

Bom Dia e que a Luz de Jesus e Nossa Senhora nos proteja sempre

TIM-TIM!