quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

QUANDO NIETZSCHE CHOROU - - Considerações sobre o diálogo entre Friedrich Nietzsche e Josef Bauer - - Comenta Neo Cirne

“QUANDO NIETZSCHE CHOROU”



Dois homens inteligentes dialogam e a conversa chega a um tema complexo: a motivação. Um dos homens é Friedrich Nietzsche, polêmico filósofo alemão, e o outro é Josef Breuer, famoso clínico vienense que foi professor de Sigmund Freud, o ‘pai da psicanálise’.

Nietzsche, um homem muito doente, quer saber por que o doutor Breuer insiste apenas em cuidar dos fracassos anteriores. Pergunta ao médico o que o motiva a continuar insistindo no tratamento.
- É uma questão simples, professor Nietzsche. A pessoa pratica a sua profissão: um costureiro costura, um cozinheiro cozinha e um clínico clinica. Ganha-se a vida, pratica-se a sua profissão, e a minha profissão é servir, aliviar a dor.

Nietzsche não se dá por satisfeito com a resposta do médico, pois a considera muito simplista, e responde:
- Quando o senhor diz que um clínico clinica, um cozinheiro cozinha ou que a pessoa pratica a sua profissão, isso não é motivação, é hábito. O senhor omitiu de sua resposta a consciência, a escolha e o auto interesse.

Breuer absorve o choque e argumenta:
- Por que então o senhor filosofa? Não seria essa a sua profissão?
- Mas eu não alego que filosofo para o senhor, e sim para mim mesmo, enquanto o senhor continua fingindo que a sua motivação é servir-me, aliviar a minha dor. Disseque as suas motivações mais profundamente e achará que jamais fez algo ‘totalmente’ para os outros. Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é autosserviço, todo amor é amor-próprio. Está surpreso? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não os ama: ama, isso sim, as sensações agradáveis que tal amor produz em você. Ama o desejo e não o desejado.

Trata-se de um diálogo instigante. Ele é fictício, está no livro “Quando Nietsche chorou (Ediouro), de Irvin Yalom, professor de psiquiatria da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Os dois pensadores viveram na mesma época, mas nunca se encontraram. O livro é baseado em ideias reais, considerando a filosofia de Nietzsche e os pensamentos de Brauer, que com Freud criou uma nova ciência. E aborda dois delicados temas dos comportamentos humanos: o que realmente motiva as pessoas e a questão do egoísmo como algo que pode ser positivo.

(Texto extraído do livro “Uma coisa de cada vez”, de Eugenio Mussak, Editora Gente).



OPINIÃO UBAV

Selecionamos este texto por achar bem interessante e atual esta discussão filosófica. Nos dias de hoje, observamos que o grande egoísmo encontra-se enraizado no foco de todas as situações, seja no campo político ou social. Não observamos mais a essência ética ou amorosa, no sentido amplo e sim, o fortalecimento do egoísmo, da maneira como Nietzsche descreveu.

Esta mudança atual, tão evidente, talvez ocorra simplesmente por um afastamento dos princípios éticos ou pela necessidade de sobreviver num tempo mais difícil, onde a quantidade de habitantes no planeta e a luta para obter uma vida digna é muito grande. Bem maior do que a época em que viveram os protagonistas deste texto, há mais de um século, que viveram no Século XIX.


Recordo que, em 2007, num cinema de arte, assisti um filme, um drama, muito interessante “Quando Nietzsche chorou’, e fiquei impressionado com os conflitos, enxaqueca e pesadelos que Nietzsche viveu e com a oportunidade que teve em ajudar o seu médico Josef Brauer com seus conselhos. Um relacionamento profissional que, na obra fictícia de Irvim Yalom, transformou-se numa grande amizade”. 

Lembrei do filme e desta passagem interessante, lendo-a retratada no livro 'Uma coisa de cada vez', Editora Gente, de Eugenio Mussak. Trata-se, como disse o autor, um diálogo instigante. O texto prefacia as considerações de Mussak no capítulo "Cada um na sua", onde aborda o egoísmo. Vale a pena você ler o livro do grande escritor, médico e professor, colunista de sucesso na revista "Vida Simples". 


Fotos: wikipedia.org


* Você poderá assistir o filme (dublado) no link https://vimeo.com/72590052 - lembro que é um drama psicológico, recomendável às pessoas que gostam dos temas filosofia, psiquiatria e psicologia.


Tim-Tim!

Neo Cirne
Colunista de UBAV

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