sábado, 8 de agosto de 2015

A CUECA DO MEU PAI - Crônica de Neo Cirne

Em homenagem ao 'Dia dos Pais', selecionamos algumas matérias publicadas de UBAV que falavam de pais e que tiveram muitos acessos. A primeira selecionada é uma história verídica, e fala de um talismã precioso para o meu pai, a sua cueca com a bandeira do Brasil. Valente cueca que atravessou mais de meio século e traduz a história de uma 'simpatia' que meu pai adquiriu em 1958, ao mandar pintar numa cueca samba canção a bandeira do Brasil. 

Era a época da Copa na Suécia. O nosso país contava com uma seleção maravilhosa, repleta de craques como Pelé, Bellini, Zito, Vavá, Garrincha, Didi, Gilmar, Nilton Santos e outros. Sagramo-nos Campeões do Mundo de Futebol pela primeira vez.

O tempo passou e a cueca permaneceu firme, como um amuleto pro meu pai. Ele acreditava muito que vestindo a cueca a seleção teria mais sorte. Até que, no ano passado a cueca do meu pai, já sexagenária, sumiu. Como resultado, penso eu, aconteceu um grande fiasco com a Seleção Brasileira de Futebol, proporcionando a todo povo a mais vergonhosa participação de uma seleção nacional em todos os tempos. 

Reapresentamos, com carinho, a saga da "Cueca do Meu Pai", que mesmo sendo guardada como um tesouro, não conseguiu chegar à Copa do Mundo de 2014.

Vamos rever esta homenagem prestada a  meu pai, um brasileiro apaixonado e grande torcedor do futebol brasileiro. Ele, assim como milhões de brasileiros que preservam seus amuletos na hora de torcerem durante uma competição esportiva. Papai usava uma calça ou bermuda com o bolso furado e nas horas mais aflitas, metia a mão pelo furo da calça, pegava na cueca e gritava: Vai Brasil!  E a sorte o acompanhava fazendo com que o Brasil fosse campeão. Por muitos anos este foi o seu amuleto da sorte. 

A todos os pais do Brasil, apaixonados como meu pai, pelo bom futebol da seleção brasileira, UBAV-Brasil deixa um grande abraço.

Neo Cirne


Estamos na Copa no Brasil, em 2014:

- Mensagem Original - 

Ontem aconteceu o início da tão esperada Copa do Mundo, competição máxima de futebol, patrocinada pela FIFA. O Brasil conseguiu a primeira vitória em sua caminhada rumo à conquista do hexacampeonato, ganhou de 3x1 da Croácia, com um penalty questionável, mas acho que os nossos meninos demonstraram qualidade. Será? 

A chave do Brasil não é tão fácil quanto parece, o time croata é um time duro neste tipo de competição. Fora a Croácia, o nosso país pegará o México, que tem sido valente rival nos últimos confrontos e finalmente a seleção de Camarões, que sempre faz a sua surpresa na Copa do Mundo. 

O técnico brasileiro, Luiz Felipe Scolari, o Felipão, está muito confiante e Pelé declarou na imprensa que o Brasil será hexa... Tomara!  Porém, mesmo com estas declarações entusiasmadas, não deixarei de pedir a todos os santos a proteção necessária e de fazer minhas mandingas para tudo dar certo novamente... Afinal, nós somos PENTA!

Tomara que ninguém amarele desta vez, como no passado (na copa de 2006) quando entregamos o jogo pra França, lembram? Tinha zagueiro mais preocupado em ajeitar o meião do que marcar o adversário e tomamos um gol ridículo. Até hoje há um grande mistério do mal súbito do Ronaldo (o fenômeno), que por mais que a comissão técnica explique, não convenceu a ninguém. Triste amarelada brasileira!


Vamos botar sangue no nosso coração campeão, valentia e qualidade na ponta da chuteira. Tudo associado à muita força de vontade e garra, só assim seremos HEXACAMPEÕES. 

A CUECA DO MEU PAI... 

Meu amado pai comprou uma cueca de linho, mandou pintar a bandeirinha do Brasil e resolveu usá-la nas partidas da 'seleção canarinho', nossa seleção brasileira. Dava tão certo que virou mais que uma mania pra ele... Virou uma ‘simpatia’ e 'certeza de vitória'. Ele a usou em 1958, 1962 e já meio gasta, usou em 1970. Que alegria... Fomos Tricampeões! Papai ficou entusiasmado e passou a guardar a cueca como uma relíquia, algo muito precioso.

Com as derrotas do Brasil em 1974 e 1978 papai ficou chateado e queria jogar a cueca fora. Disse-lhe que não jogasse fora, que a guardasse com carinho, como um ‘amuleto da sorte’, um verdadeiro talismã, é claro que ele aceitou. Caprichou, deixou-a bem guardada e limpinha. Papai ‘partiu’ em 1990 e eu herdei a cueca da sorte. Meu paizão "partiu" sem conseguir ver as outras duas conquistas da seleção, que chegaria ao pentacampeonato. 

Em 1994, no dia da decisão contra a Itália, na hora dos pênaltis, fui ao meu quarto, tirei a velha cueca do baú e usei-a. EURECA! DEU CERTO! Fomos Tetracampeões! Que alegria! Tudo era festa! O amuleto do meu pai tinha poder realmente...  O Brasil ficou em festa com a conquista e passei adotar a cueca com a bandeirinha como um precioso amuleto, agora incorporado às minhas manias. 
Guardei a cueca com mais cuidado ainda, ‘a sete chaves’, a velha cueca samba canção do papai, agora se tratava de algo raro... Uma preciosidade.

No dia da decisão da copa de 2002, eu estava em Araçatuba-SP, em viagem e discretamente, peguei a cueca na mala e usei sem que minha acompanhante percebesse a velha cueca que eu estava usando. Fomos Pentacampeões!

Estava convicto que ela dava muita sorte, realmente. Já nas copas de 2006 e 2010, esqueci e não a usei, ela ficou guardada na casa de minha filha, no Rio. Eu morava no nordeste. Pena não ter podido utilizá-la nestas ocasiões.

Agora, em 2014, com a realização da Copa no Brasil, começo, desesperadamente, a revirar gavetas, caixas e baús atrás da velha cueca e não acho o "velho talismã", isto pode ser um mau presságio.

Podem ter certeza que se eu achar a cueca de meu pai o Brasil será HEXA e bem aqui no Brasil. Finalmente eu a encontrei. Ela estava velhinha e poida. Mas, mesmo assim, eu continuava acreditando no seu poder. Lavei-a com todo cuidado, com perfume e sabão neutro. A bandeirinha da cueca já estava meio e desbotada, mal podíamos ler as palavras Ordem e Progresso.  Deixei- a secando ao sol, na cadeira, a beira da piscina e saí. Quando retornei, ela não estava mais lá.
Ei, minha filha! Você viu a "cueca do meu pai" por aí? Coloquei-a pra secar na cadeira. Minha filha respondeu: Não, pai, a cueca do vovô foi lavada por você, eu lembro ter visto. Mas, se estava secando aqui fora, pode ser que um dos dois cachorros ou o gato branco, que chamamos de 'Alemão' a tenha pego... Depois de procurar por mais de uma hora, disse-me: 'É pai... O gato pegou! 
- Será que o gato pegou mesmo, minha filha? E ela me respondeu, brincando: - Não pai... Acho que não! Acho que ela se desintegrou! Sorrindo ironicamente. 

Amigos, sem brincadeira, a velha cueca, no mínimo, é a certeza de que nós brasileiros, assim como ela, possuímos qualidade e somos resistentes. Ela, psicologicamente, me daria a maior força e me deixaria muito mais tranquilo no momento em que a bola rolasse em campo. Porém, agora, receio pelos próximos jogos. Em futebol tudo pode acontecer... Inclusive, pode ser que a cueca do meu pai apareça... Tomara!

Entendam que esta é apenas uma simpatia minha, herdada de meu pai. Afinal quem não tem a sua simpatia?  A cueca do meu pai durou mais de 60 anos e esteve presente nas cinco conquistas... Portanto, é um talismã que merece respeito. 

A energia que meu pai depositou na sua velha cueca, na crença de sua magia e poder, colocou em seu pensamento e no meu também, de que tudo é possível, ampliando a nossa fé na qualidade do futebol brasileiro. Fé que em cada canto do país, por diversos motivos, ajudou muito o Brasil a ser Pentacampeão.

Que o Brasil faça uma excelente campanha nesta Copa do Mundo de 2014. Vamos torcer!

Tim-Tim!

(Dias depois, aconteceu a histórica derrota de 7x1 para a Alemanha. Hoje eu tenho certeza de que não foram os cachorros que comeram a cueca do meu pai e sim, o gato 'Alemão', que se aproveitou de um momento de descuido e sumiu com o precioso talismã. O gato nunca mais foi visto). 

Neo Cirne
Colunista de UBAV