sexta-feira, 2 de maio de 2014

"A CULTURA TIM-TIM!" - - O REVOLVER DO SENADOR - Crônica de Fernando Sabino - Apresentação: Neo Cirne

A CULTURA TIM-TIM!


Apresentamos hoje uma crônica do querido Fernando Sabino, foi escritor importante da literatura brasileira e foi jornalista também. Certa feita fui num happy hours no Hotel Caesar Park em Ipanema/Rio de Janeiro e para minha grande surpresa encontrei Fernando Sabino tocando saxofone, a música era seu hobby. Ele fazia parte de um conjunto de amigos que tocava no fim de tarde no charmoso restaurante.

Sabino era um homem interessante, simpático, de uma biografia sensacional e muito intensa. 
UBAV recomenda uma releitura de sua biografia no site http://www.releituras.com/fsabino_bio.asp

Este homem de coração menino faleceu no dia 11 de outubro de 2004, na cidade do rio de Janeiro. A seu pedido, está escrito o seguinte em seu epitáfio: "Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino".


O REVÓLVER DO SENADOR


O Senador ainda estava na cama, lendo calmamente os jornais, e eram dez horas da manhã. Súbito ouve a voz do netinho de quatro anos de idade por detrás da folha aberta, bem junto de sua cabeça:
– Vovô, eu vou te matar.

Abaixou o jornal e viu, aterrorizado, que o menino empunhava com as duas mãos o revólver apanhado na gaveta da cabeceira.  Sempre tivera a arma ali ao seu alcance, para qualquer eventualidade, carregada e com uma bala na agulha. Nunca essa eventualidade se dera na longa seqüência de riscos e tropeços que a política lhe proporcionara. No entanto, ali estava, agora, apanhado de surpresa, sob a mira de um revólver. O menino começou a rir de sua cara de espanto.

– Eu vou te matar – repetiu, dedinho já no gatilho.

O menor gesto precipitado e a arma dispararia.
Pensou em estender o braço e ao menos afastar o cano de sua testa, que já começava a porejar suor. Mas temeu o susto da criança, o dedo se contraindo no gatilho... Tentou falar e de seus lábios saíram apenas sons roufenhos e mal articulados.

– Não me mata não – gaguejou, afinal: – você é tão bonzinho...

– Pum! Pum! – e o demônio do menino sempre a rir, só fez dar um passo para trás; que o colocou fora de seu alcance. Agora estava perdido.

– Cuidado, tem bala... – deixou escapar, e a voz de novo lhe faltou. Toda uma vida que terminava ali, estupidamente nas mãos de uma criança – de que adiantara?  Tudo aflição de espírito e esforço vão. Se alguém entrasse no quarto de repente, a mãe, a avó do menino... Que é isso, menino! Você mata seu avô! Com o susto... Senti o pijama já empapado de suor. Era preciso fazer alguma coisa, terminar logo com aquela agonia. Estendeu mansamente o braço trêmulo:

– Me dá isso aqui...

– Mãos ao alto! – berrou o menino, ameaçador, dando passo para trás, e as mãos pequeninas se firmaram ainda mais no cabo da arma. O Senador não teve outra coisa a fazer senão obedecer.

E assim se compôs o quadro grotesco: o velho com os braços erguidos, o guri a dominá-lo com o revólver. De repente, porém, o telefone tocou.

– Atende aí ­– pediu o Senador, num sopro.

Estava salvo: o menino tomou do fone, descobrindo brinquedo novo, e abaixou o revólver. O Senador aproveitou a trégua para apoderar-se da arma. 

Então pôs-se a tremer, descontrolado, enquanto retirava as balas com os dedos aflitos. O menino começou a chorar:
– Me dá! Me dá!

A mulher do senador vinha entrando:

–O que foi que você fez com ele? Está com uma cara esquisita... Que aconteceu?

– Acabo de nascer de novo – explicou simplesmente.


                                                    

Fernando Sabino


TIM-TIM!

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