terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

"A CRÔNICA TIM-TIM!" - MORRER EM VIDA É FATAL - MARTHA MEDEIROS - (TEXTO COMENTADO POR NEO CIRNE)


*Morrer em vida é fatal*
- Texto de Martha Medeiros -

Nunca me esqueci de uma senhora que, ao responder por quanto tempo pretendia trabalhar, respondeu com toda a convicção: “Até os 100 anos”. O repórter, provocador, insistiu: “E depois?”. “Ué, depois vou aproveitar a vida”.

É de se comemorar que as pessoas aparentem ter menos idade do que realmente têm e que mantenham a vitalidade e o bom humor intactos – os dois grandes elixires da juventude. No entanto, cedo ou tarde (cada vez mais tarde, aleluia), envelheceremos todos. Não escondo que isso me amedronta um pouco. Ainda não cheguei perto da terceira idade, mas chegarei, e às vezes me angustio por antecipação com a dor inevitável de um dia ter que contrapor meu eu de dentro com meu eu de fora.

Rugas, tudo bem. Velhice não é isso, conheço gente enrugada que está saindo da faculdade. A velhice tem armadilhas bem mais elaboradas do que vincos em torno dos olhos. Ela pressupõe uma desaceleração gradativa: descer escadas de forma mais cautelosa, ser traída pela memória com mais regularidade, ter o corpo mais flácido, menos frescor nos gestos, os órgãos internos não respondendo com tanta presteza, o fôlego faltando por causa de uma ladeira à toa, ainda que isso nem sempre se cumpra: há muitos homens e mulheres que além de um ótimo aspecto, mantêm uma saúde de pugilista.
A comparação com os pugilistas não é de todo absurda: é de briga mesmo que estamos falando. A briga contra o olhar do outro.

Muitos se queixam da pior das invisibilidades: “Não me olham mais com desejo”. Ouvi uma mulher belíssima dizer isso num programa de tevê, aí eu pensei: não pode ser por causa da embalagem, que é tão charmosa. Deve estar lhe faltando ousadia, agilidade de pensamento, a mesma gana de viver que tinha aos 30 ou 40. Ela deve estar se boicotando de alguma forma, porque só cuidar da embalagem não adianta, o produto interno é que precisa seguir na validade.


Quem viu o filme Fatal deve lembrar do professor sessentão, vivido por Ben Kingsley, que se apaixona por uma linda e jovem aluna (Penélope Cruz) e passa a ter com ela um envolvimento que lhe serve como tubo de oxigênio e ao mesmo tempo o faz confrontar-se com a própria finitude. No livro que deu origem ao filme (O Animal Agonizante, de Philip Roth), há uma frase que resume essa comovente ansiedade de vida: “Nada se aquieta, por mais que a gente envelheça”.

Essa é a ardileza da passagem do tempo: ela não te sossega por dentro da mesma forma que te desgasta por fora. O corpo decai com mais ligeireza que o espírito, que, ao contrário, costuma rejuvenescer quando a maturidade se estabelece.

Como compensar as perdas inevitáveis que a idade traz? Usando a cabeça: em vez de lutarmos para não envelhecer, devemos lutar para não emburrecer. Seguir trabalhando, viajando, lendo, se relacionando, se interessando e se renovando. Porque se emburrecermos, aí sim, não restará mais nada.

Autora: Martha Medeiros



Comentário Tim-Tim

É sempre muito bom ler o texto desta escritora maravilhosa, Martha Medeiros. A maneira fácil, didática e coloquial com que ordena os seus pensamentos melhora bastante o entendimento das suas crônicas. Esta abordagem onde ela fala do tempo e da diferença de percepção entre a nossa mente e o resto do corpo, tiramos conclusões bem interessantes. 


Conheci muitas pessoas que chegaram aos 100 anos de idade com uma alegria imensa e vontade de viver de um adolescente. Poderia até citar os nomes de Oscar Niemeyer, grande arquiteto brasileiro; da Poetisa Cora Coralina; da Dôna Canô Veloso, uma das pessoas mais incríveis que conheci e considerada Mãe da Bahia, pelo olhar infantil, mente clara, personalidade marcante e a paz que transmitia em suas palavras doces. 
Poderia citar tantas outras pessoas que inclusive fazem e fizeram parte do nosso projeto de luz, não é verdade? As amigas Maria de Lourdes Marques - 97 - (Niterói) e Osminda Ramalho - 88 - (João Pessoa), e tantas outras que beiraram o centenário e concluíram a primeira etapa desta vida terrena com alegria e dignidade, deixando exemplos. 

Costumo dizer que "envelhecer é a arte de perceber-se, aprender, adaptar-se e acreditar em todas as possibilidades". Não é sem razão que acumulamos sabedoria na terceira idade. Porém, o nosso corpo cansa e se nega a acompanhar o ritmo de nossos pensamentos. Esses não perdem a sua agilidade, o corpo sim, mas nos adaptamos.

Precisamos encontrar o elixir da juventude para, pelo menos equilibrar esta diferença entre o corpo e a mente. Assim poderemos até continuar alimentando a chama do amor que aquece o nosso coração.
Eu mesmo, nesta minha fase “sex” (sexagenária), ainda penso em constituir uma nova família e poder dar o amor e carinho que concentro no coração à mulher que será a minha companheira de estrada... A minha parceira derradeira.

A gente acerta... A gente erra... A gente ganha experiência com o passar dos anos e fica mais seletivo, identificando quem é a pessoa merecedora de nosso carinho. Nesta altura do campeonato, não há mais tempo para novos enganos, há necessidade de renovar a esperança amorosa com sabedoria, para que a Vida nos dê flor e frutos, recheados de atenção e um sonho permanente.


Desejo a todos vocês, uma 3ª idade maravilhosa, com saúde e otimismo, deixando de herança uma lição de amor, ao partir. Este é o nosso ciclo de vida, viemos aqui para deixar a nossa página escrita com letras de ternura, amor, otimismo e fé nas próximas gerações. Porém, tendo a certeza de que valeu a pena viver!


Neo Cirne

Fundador e Coordenador de UBAV-Brasil




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