segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"A CRÔNICA DO DIA" - MEU DESFILE VAI PARA O BREJO - Texto de Neo Cirne

MEU DESFILE VAI PARA O BREJO

* Neo Cirne *

Mais uma segunda-feira, que bom! Sei que não é o dia ideal para chegar com toda energia no trabalho, pois, na maioria das vezes, nos fins de semana nos cansamos demais, talvez um pouco mais até do que nos dias úteis. Mesmo tendo tempo para relaxarmos e recompormos as baterias, meio descarregadas, o sábado e o domingo nos impõem uma série de atividades, fora do padrão rotineiro e que além da satisfação, nos cansam muito também. 

Uma rotina que é quebrada, logo bem cedinho. Engulo o café correndo e ajudo a arrumar a casa, vou fazer compras no mercado, levar as crianças na aula particular, vão tentar concurso pra uma nova escola.  Volto pra casa pra dar banho nos cachorros, alimentar as calopsitas e os outros animais de estimação da casa - são 3 cachorros, gato, tartaruga e um hamster... Uma multidão! Volto pra pegar as crianças que vão direto pra piscina, aproveitando o dia quente de sol.

Depois disso tudo, lá pelas 12h eu começo a colocar fogo no carvão da churrasqueira para assar uma carne bem gostosa. Ajeito o quintal, rego as plantas, recolho a "sujeira" dos cães e finalmente, lá pelas 13h, boto a carne pra assar. 

Tomo uma cerveja e uma ducha, enquanto a carne começa a assar. Em seguida, pulo na piscina para um delicioso mergulho. Mal entrei na piscina e as crianças disseram: - Já tem carninha pronta, pai? Evidente que não, mas digo que vou ver e saio daquela água deliciosa direto para o inferno escaldante da churrasqueira. Em tempo muito quente como este, a sensação de calor é muito maior. Começa o suadouro. 

Pra compensar a desidratação, lá vai cerveja gelada... Humm, delícia! Não passaram 5 minutos e todas as crianças, umas seis, já estavam com seus pratos na mão, com arroz e farofa, querendo carne, bem passadinha. 

Impossível, tinha posto as carnes pra assar há menos de 20 minutos, demoraria um pouco mais. Eu, com carinho, mandava todo mundo de volta pra piscina, antes dava uma viradinha na carne e aproveitava pra dar mais um mergulho... E voltava pro braseiro. Assim, entre a carne que assava e servia, as cervejas que tomava, eu ia cansando e pensava, tudo que já havia feito no dia. Pensava também que eu quero neste carnaval fazer uma coisa diferente: quero desfilar na Marquês de Sapucaí, como nos velhos tempos. Para isto, falei com a mulher antecipadamente e perguntei-lhe se ela queria ir. Tive um não como resposta, mas ela sabia que eu gostava e não se opôs. Falou até o seguinte: você vai meu bem, que eu fico lá na casa da mamãe vendo você desfilar pela TV. Ficamos acertados assim e passei a sonhar com o dia do meu desfile.


Está calor, o carnaval está chegando e este ano, já que eu vou desfilar, tenho que poupar energia, pra chegar tinindo na passarela do samba. 


Há quanto tempo eu espero o momento de vestir a minha fantasia imperial e poder atravessar a passarela cantando, sambando, feliz e sem ver a minha linda escola atravessar o samba por causa da chuva, terminar o desfile correndo até a linha final de desfile, antes que fechem os portões para não estourar o tempo de desfile. Trabalhei duro este ano e conseguir poupar um dinheirinho para melhorar o padrão da minha fantasia. Vou sair numa ala bem bacana e a minha fantasia gerou um custo, por volta, de R$5.000... Não esperava que fosse tão cara, mas fazer o que? Quem tá na chuva é pra se molhar. Não! Chuva não, meu São Pedro. Desta vez, não.  

 No passado, por não ter condições eu só brincava nas alas dos índios ou no "apoio": ajudava a empurrar os carros alegóricos pesados... Era um sufoco!

 Este ano será diferente, tem quase 25 anos que não desfilo, naturalmente, eu não podia ir pra ala mais barata, como no passado, na dos índios. Também, já não ando com muita saúde e disposição pra empurrar carro alegórico, fiz até um pé de meia para este momento, por isso exorbitei. 

O desfile de carnaval das escolas de samba cariocas é lindo, mas era muito mais bonito. Normalmente, nos dias de desfile chovia, quase sempre na madrugada do segundo dia, mas não chovia tanto quanto, nos últimos anos tem chovido. 

Tenho saudade do carnaval tradicional, dos bailes de gala, dos blocos de embalo com suas lindas canções e marchinhas carnavalescas! Era ótimo o carnaval! Tomara que não chova este ano!


A semana passa... O calor continua. 

Quando chega o fim da tarde de domingo, depois de ter feito o churrasco da família e ter tomado todas cervejas possíveis, face ao calor, após o almoço procurei um cantinho pra um providencial cochilo. Procuro um lugar aqui, outro ali... Nada! 


Não queria ir pra cama, necessitava de um cochilo por 1 horinha apenas, mas como posso dormir com as crianças gritando e dando bombinhas na piscina... Um barulhão!

Não dava pra ficar ali, discretamente, saí pela porta dos fundos e fui dormir no banco da edícula (espaço da casa onde fica uma grande mesa e a churrasqueira). 

Já estava quase pegando no sono, quando o cachorro percebendo meu estado, meio apagadão, foi me lamber a cara, não me deixando dormir. Ele é tão fofo, mas é um chato nestas horas.


Levantei-me e fui pra antessala, me deitei num cantinho, me espreguicei gostoso... Agora sim! Precisava processar o álcool das muitas cervejas tomadas no almoço. 

Na sala ao lado, a empregada e minha sogra, viam na TV um programa muito chato, que chamavam de “domingão”, êta voz chata e alta daquele apresentador, meu Deus! Como elas aguentam? Não sei como não se cansam! É vício... Só pode ser. Até coisa ruim vicia.


 Não consegui pegar no sono. Fui pra varanda da casa, os carros passavam soltando fogos, eles deviam estar voltando do Maracanã... 
Jogavam Vasco e Flamengo, nem quis saber da partida, neste dia deixei o meu Flamengo de lado, eu precisava descansar. Estava quase cochilando, quando nova salva de fogos me acordou mais mal humorado ainda, pelas bandeiras pretas e brancas tremulando nos carros, percebi que o “Mengão” devia ter perdido. Que saco!
 Paciência, esporte é assim mesmo, pensei. 



Com meu colchonete na mão e um travesseiro na outra, atravessei o quintal e fui dormir no galinheiro, a casa era grande, no fundo do quintal tínhamos uma horta e um pequeno galinheiro. 

Um galo brigão e de raça, tomava conta de oito felizes galinhas. O galo era uma fera, o dono do pedaço e cantava o dia inteiro para deixar suas parceiras felizes. Eu o chamava de "O Invencível", o havia comprado de um criador de Galos de Briga, em Pendotiba, Niterói. Ele me afiançou que ele era invencível, daí o nome. 
– Do lado do galinheiro tinha um espaço fresquinho onde faria o meu ninho para poder cochilar um pouquinho. Meia hora apenas me bastaria... Eu precisava muito daquele cochilo.
 Qual o que! O Invencível, percebendo a minha chegada sorrateira, começou a cantar baixinho, e foi aumentando o tom do canto, até chegar num nível insuportável. Exclamei: - INVENCÍVEL CALE A BOCA, SE NÃO TE BOTO NA PANELA! 
Quanto mais eu reclamava, mais ele cantava de galo, metidinho ele! 
O sonho da minha mulher era acabar com o galinheiro. Aquele galo metido a valentão me encheu a paciência aquela tarde .


Caiu a noite, finalmente o quintal ficou vazio e fui dormir na borda da piscina. Fez-se silêncio, coisa rara aos domingos. De repente, meu vizinho e os seus três agitados filhos, todos vascaínos, chegaram, fazendo bagunça. Fingi que não tinha acordado, ainda ouvi a minha mulher respondendo à sua pergunta, ao abrir o portão: - Cadê o patrão?,
-Ele está cochilando por aí

E ele saiu me procurando, quando me viu dormindo na beira da piscina, me empurrou dentro d’água e disse, acorda flamenguista malandro! Vamos tomar uma cervejinha pra comemorar a vitória do Vasco! Vocês podem imaginar o que pensei na hora, não?

Só então, percebi que era uma conspiração dominical. As crianças gritando na piscina, o cão lambendo a minha cara, a TV com aquele programa chato, o barulho dos carros, o foguetório, aquele galo invencível e o meu grande amigo vascaíno. Todos, na realidade, só queriam me lembrar que o dia de domingo deve ser uma alegria, só que é muito cansativo!


 Até que um banho na piscina pra acordar, neste verão danado, foi muito bom. Como bom perdedor, brindei a felicidade vascaína do meu amigo, conversamos e falei da minha alegria em poder desfilar neste carnaval que está chegando.
 A TV da edícula foi ligada e a primeira notícia do “FANÁTICO”, programa de variedades do Plin-Plin, foi esta:

Esta onda intensa de calor infernal que o Brasil atravessa permanecerá por mais umas três semanas. Informações do INEP dizem que, não são nada boas as previsões para o Carnaval Carioca, preveem chuvas e tempestades para todo o período momesco.

NÃO!!! MINHA POUPANÇA! MINHA FANTASIA! MEU DESFILE FOI PARA O BREJO... NÃO! NÃO! NÃO ACREDITO! 

Já vi tudo, no próximo carnaval, deixarei a mulher e as crianças na casa da sogra, farei um churrasquinho pra mim somente... Sem vizinhos e vou me trancar os quatro dias dentro de casa. Ligarei o computador e jogarei paciência... 

É necessário ter muita paciência pra entender o mau humor de São Pedro, que dizem que é o "Porteiro do Céu" e quem manda no tempo, enviando chuva nas horas de alegria e muito calor, nos lindos dias de trabalho com paletó e gravata. 

Será que ele gosta de carnaval? Acho que não, pois mais uma vez, o meu desfile vai para o brejo, igual a história da Vaca que foi jogada no precipício por um monge... Que historinha cacete aquela!!
O meu amigo vascaíno, babando de inveja, porque pretendo desfilar me mandou um post do Facebook, que torço para não ser verdade, mas quero compartilhar com vocês... 



Veja se eu posso acreditar em amizade de Vascaínos com Flamenguistas. É difícil, não? Mas, existe. Eu continuo seu amigo... Torcendo pra não chover no carnaval, porque desfilar não é pecado.


Tim-Tim!

  

  * Crônica Fictícia *
Neo Cirne
Coordenador de UBAV



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