quarta-feira, 7 de março de 2012

"CONTANDO UM CONTO..." A FÁBRICA DE PIPAS

A Fábrica de Pipas ia de vento em popa. O negócio de Pedro, Raoni e Daniel, de fazer pipas e vendê-las para os garotos das redondezas, melhorava dia a dia. Os pedidos não paravam de aumentar. Eles chegavam da escola e iam direto para a garagem onde trabalhavam.
– Quase não está dando para fazer tudo o que nos pedem — diz Raoni, amarrando uma rabiola.
– Se continuar assim teremos que começar a recusar encomendas – concorda Daniel.
– Mas se recusarmos, o pessoal vai comprar pipas em outro lugar – afirma Pedro, apreensivo, recortando papel.
– Não podemos é deixar de trabalhar com qualidade — retruca Daniel.
– É, mas está difícil satisfazer a todos — prossegue Raoni.
Desde as últimas melhorias, a Fábrica de pipas tinha dado um grande salto em idade. É claro que apareciam problemas, mas os garotos se sentiam cada vez mais capazes de resolvê-los.
– Difícil mesmo é passar por esses meninos que vivem por aí, nas ruas — diz Pedro, em tom de desabafo.
Raoni parou de amarrar a rabiola e os três se entreolharam.
– Tenho dado meu lanche para eles — diz Raoni, após uma pausa.
Pedro e Daniel interromperam o que estavam fazendo.
– Eu, também — acrescenta Daniel.
– Me parece tão pouco — prossegue Raoni. — Às vezes são seis ou
sete para dividir um pão. O lanche acaba em um segundo!
– Mas se todos fizessem isso que você chama de pouco, talvez eles não estivessem como estão! — exclama Daniel.
– Acho que não adianta dar só comida a eles — interrompe Pedro. – Parece uma coisa sem fim. No dia seguinte lá estão eles no mesmo lugar, com fome.
– Não sei, não — diz Raoni — sinto que temos que ser fraternos, dividir o que temos.
– Eu também acho, mas não chega, Raoni — interrompe Pedro, de novo.
– Vocês têm ideia melhor? — pergunta Raoni.
Pedro e Daniel ficaram calados. Dar o lanche às crianças que viviam nas ruas, parecia, de fato, uma alternativa.
– O melhor é falarmos menos e trabalharmos mais — diz Daniel.
– É, temos um monte de pipas para entregar ainda hoje — consente Pedro, recomeçando a cortar papel.
Ver crianças da mesma idade deles vivendo com fome nas ruas, cada dia os incomodava mais. Por isso, cada vez se falava mais em fraternidade e solidariedade, não só na fábrica, mas também no colégio e em casa.
Raoni! Seis pães para o lanche?! Não é muito, não?
– Mas não vou comer sozinho, mãe — responde ele, pego de surpresa
– eu… eu dou para uns meninos que moram na calçada, junto ao colégio. Às vezes eles só comem isso o dia inteiro.
E, não dando tempo à mãe para revidar, Raoni prossegue:
Eles contam com estes sanduíches e eu… como que me comprometi…
– Mas será que assim você vai acabar com a fome deles?
– Não sei, mãe. Mas se cada um der um pouco…
Também a mãe de Raoni se incomodava com a situação das crianças abandonadas e se sentia, muitas vezes, sem saber o que fazer.
– Leva estas bananas para eles, filho — diz ela, arrumando tudo num saco plástico.
Raoni sorri para a mãe, pega o saco, e sai para o colégio.
Nessa tarde, depois das aulas, Pedro, Raoni e Daniel trabalhavam em
silêncio. Nenhum deles queria comentar um fato que não lhes saía da cabeça: bem junto à porta da garagem, um menino e uma menina, descalços e muito sujos, dormiam encostados um no outro.
– Não estou conseguindo trabalhar direito com esses dois aqui, bem na nossa porta — desabafa Pedro, parando de colar papel de seda.
– Nem eu! — disseram os outros, em coro.
– Podíamos ir pegar alguma coisa para eles comerem — arrisca Raoni.
– Logo hoje que temos dez pipas para terminar e uma dúzia delas para entregar — diz Daniel. — Se você ainda for em casa, não vai dar tempo.
devagar, recomeçaram o trabalho, de novo em silêncio. Raoni pensava que talvez fosse mais importante, naquele momento, pegar mesmo alguma coisa para as crianças comerem, ainda que o trabalho atrasasse. Daniel achava isso também, já arrependido por ter mencionado as tarefas que ainda tinham pela frente. Quanto a Pedro, não conseguia pensar em nada.
Mil ideias lhe ocorriam, junto com o desejo enorme de encontrar uma saída. De repente, ficou de pé:
– Tive uma idéia!
Raoni e Daniel olharam-no, admirados.
– O que foi?
– I se déssemos trabalho para eles? — perguntou Pedro, entusiasmado.
Eles quem?
– Como assim?
– Podemos chamá-los para trabalhar aqui conosco — acrescentou Pedro, apontando na direção da porta da garagem.
– Para fazer o quê? — pergunta Raoni.
– Ora, eles podem entregar as pipas encomendadas para hoje.
– Ótima ideia! — exclama Daniel.
– Assim eles ganhariam algum dinheiro — acrescenta Raoni.
– Claro! E poderiam ainda ir comprar as varetas que estamos precisando e o papel roxo que está no fim — afirma Pedro.
– Vamos acordá-los, então — diz Raoni, eufórico.
– Vamos! — gritam Pedro e Daniel.
Levantaram-se de um pulo e, saindo da garagem, rodearam as crianças. Depois de alguma hesitação, sacudiram o menino. Ele abriu os olhos e, assustado, se encostou mais à menina, protegendo-a. Ela acordou também, e os dois, desconfiados, olharam os três garotos.
– Enquanto vocês conversam, eu vou lá em casa pegar alguma comida e roupa lavada — disse Pedro, e saiu correndo.
Raoni os levou até uma torneira nos fundos da garagem, onde eles se lavaram, e Daniel fez-lhes a proposta de trabalho.
Felipe e Anamélia eram irmãos e não se lembravam à quanto tempo viviam na rua. No primeiro momento, ficaram desconfiados, mas logo Pedro chegou com as roupas e alimentos, e devagar, explicou-lhes, de novo, a proposta.
– Passamos então a ser cinco sócios e dividimos os lucros em partes iguais — concluiu Pedro, depois de algum tempo.
Felipe e Anamélia concordaram com entusiasmo.
Nesse mesmo dia, Felipe entregou todas as pipas que tinham ficado prontas.
Nos dias que se seguiram, Anamélia mostrou habilidade em cortar e colar o papel e muita imaginação para combinar as cores. Felipe, por seu lado, revelou-se um ótimo negociante: conseguia sempre descontos nas compras de papel, varetas e linha. E continuou sendo eficiente nas entregas.
A entrada dos dois para a sociedade fez com que a Fábrica de Pipas prosperasse mais ainda. E a alegria que tomou conta de Pedro, Raoni e Daniel de algum modo atenuou a inquietude que eles sentiam em relação às outras crianças que viviam abandonadas pelas ruas.
Mais tarde, os pais dos meninos ajudaram, e Felipe e Anamélia passaram a frequentar a mesma escola que eles.
Ao tomar conhecimento da experiência, outros garotos, em outros lugares, fizeram nascer e crescer outras fábricas de pipas, de carrinhos de madeira, de livros, de bonecas, de … no fundo, fábricas de solidariedade.
E num domingo, manhã de sol, os cinco garotos reuniram as crianças das redondezas e juntos construíram uma pipa enorme, com inúmeros pedacinhos de papel de seda.
Depois empinaram-na e, de mãos dadas, ficaram um tempão olhando suas cores de encontro ao sol. Presa à rabiola, uma faixa dizia:

Se cada um
fizer um pouquinho,
uma bela
pipa vai
voar tão
alto quanto
os nossos
sonhos
mais
coloridos





(Este texto foi extraído do site http://www.historiasinfantis.eu/)


SEMPRE HÁ UM ESPAÇO SOLIDÁRIO NO SEU CORAÇÃO...
USE-O COM AMOR E SEM MODERAÇÃO!
(Neo Cirne)


TIM-TIM!

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