quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Lira poética ESPECIAL - No meio do caminho tinha uma pedra - por Neo Cirne



LIRA POÉTICA Especial

Nossa coluna poética faz hoje, dia 31 de outubro, uma homenagem muito especial. Lembramos o aniversário do maior poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, um amante apaixonado e questionador. Hoje ele completa, em nossos corações e memória, 110 anos de vida.

 Um símbolo do modernismo literário brasileiro. Um poeta que NUNCA deixou de falar de amor em qualquer uma das suas poesias, cartas ou contos.

Drummond nasceu em Itabira, na lindo Estado de Minas Gerais, de lá saiu para estudar em Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo. Também estudou numa cidade em que também morei, na minha infância: Nova Friburgo, cidade do Estado do Rio de Janeiro. Ele estudou com os Jesuítas, no Colégio Anchieta.

Monumento a Carlos Drummond de Andrade, em Itabira - MG


Casou-se em 1925 com Dolores Dutra de Morais, com quem teve sua única filha Maria Julieta Drummond de Andrade, era um pai apaixonado. Formado em Farmácia, nunca exerceu a profissão, dedicou-se as letras e com auxílio de alguns amigos, fundou “A REVISTA” para publicar o Modernismo no Brasil. 

Drummond., como os modernistas, segue a proposta de Mário e Oswald de Andrade, com a instituição do verso livre, mostrando que este não depende de um metro.

Sua primeira poesia, chamou-se “ALGUMA POESIA”, que era uma compilação de várias poesias, até hoje bem conhecidas. Elas foram escritas sobre influência do movimento modernista de 1922.

Drummond seguiu em Alguma Poesia a mesma linha temática que permaneceu durante sua trajetória poética, que pode ser identificada como se segue, a partir do que o próprio autor sugere como condução temática de sua obra:

1. O indivíduo – "um eu todo retorcido"
Seção que investiga a formação do poeta e sua visão acerca do mundo. Sempre lúcido, discorre com amargor, pessimismo, ironia e humor o que ele, atento observador, capta de si mesmo e das coisas que o rodeiam. Alguns poemas sintetizam a visão do indivíduo, como o poema.  Poema de sete faces em que vaticina seu destino. É o primeiro poema de Alguma Poesia do qual transcreve-se a primeira estrofe: Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

A palavra gauche (lê-se gôx), de origem francesa, corresponde a "esquerdo" em nosso idioma. Em sentido figurado, o termo pode significar "acanhado", inepto. Qualifica o ser às avessas, o "torto", aquele que está à margem da realidade circundante e que com ela não consegue se comunicar.

2. A família – "a família que me dei".
Uma das constantes temáticas de Drummond, presente desde Alguma Poesia até seus versos finais, é a família, sua vivência interiorana em Minas Gerais, a paisagem que marca sua memória. Contrariando o lugar-comum, ao invés de se referir à família como algo que lhe foi atribuído por Deus, o poeta coloca um "que me dei" a analisa suas relações pessoais, consciente de que se assentam na perspectiva pessoal. De modo muito individual, retrata o escoar do tempo, como é possível observar em Infância, Família, Sesta, alguns dos mais significativos poemas de Alguma Poesia. 

3. O conhecimento amoroso – "amar-amaro" 
Com o jogo de palavras amar-amaro, título emprestado de um poema do livro Lição de Coisas, o poeta acrescenta ao substantivo "amar" o adjetivo "amargo", sentimento recorrente em alguns de seus poemas e livros escritos posteriormente. Em Alguma Poesia o tema é tratado com boas doses de humor, sátira ou pitadas de idealismo, como em Toada do amor, Sentimental, Quero me casar e Quadrilha.

4. Paisagem e viagens
Um grupo de poesias faz anotações sobre viagens, retratando paisagens vistas e vividas, mas também recuperando as influências recebidas da sempre subserviente postura brasileira ante as supercivilizações, como em Lanterna mágica, Europa, França e Bahia. 

5. O social e a evolução dos tempos
Drummond constrói poemas em que contempla a mudança dos tempos, o progresso chegando e invadindo a antiga paisagem, como em A rua diferente ou Sobrevivente.

Poemas escolhidos

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei, que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


POEMA DE SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.


O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.


Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.


Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.


Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.



TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO

Eu também já fui brasileiro 
moreno como vocês. 
Ponteei viola, guiei forde 
e aprendi na mesa dos bares 
que o nacionalismo é uma virtude. 
Mas há uma hora em que os bares se fecham 
e todas as virtudes se negam. 


Eu também já fui poeta. 
Bastava olhar para mulher, 
pensava logo nas estrelas 
e outros substantivos celestes. 
Mas eram tantas, o céu tamanho, 
minha poesia perturbou-se. 


Eu também já tive meu ritmo. 
Fazia isso, dizia aquilo. 
E meus amigos me queriam, 
meus inimigos me odiavam. 
Eu irônico deslizava 
satisfeito de ter meu ritmo. 
Mas acabei confundindo tudo. 
Hoje não deslizo mais não, 
não sou irônico mais não, 
não tenho ritmo mais não.




OUÇAM DUAS POESIAS DE DRUMMOND NA VOZ DE DRUMMOND





E AGORA, JOSÉ?







PARABÉNS, QUERIDO POETA, A NOSSA LIRA POÉTICA NÃO PODIA DEIXAR DE LEMBRAR A DATA EM QUE, HÁ 110 ANOS, UM “ANJO TORTO”, COMO DISSE, O INCENTIVOU A SER FELIZ NESTE MUNDO. VOCÊ SÓ NÃO ESPERAVA FAZER TANTA GENTE FELIZ E APAIXONADA COM SEUS CONTOS E SUAS POESIAS.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, PATRIMÔNIO CULTURAL DO BRASIL.

TIM-TIM!

Dados biográficos:

FONTE: WIKIPÉDIA.ORG

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