quinta-feira, 29 de março de 2012

"Grandes Mestres da Literatura" - RUBEM ALVES - by Neo Cirne

Queridos leitores, começamos hoje uma nova coluna dedicada a valorização da Literatura. Nosso desejo é desfilar pra vocês alguns mestres da literatura e trechos de suas obras para mostrar o valor destes maravilhosos profissionais na arte de escrever.


Para começar este quadro apresentaremos o querido escritor brasileiro Rubem Alves, boa leitura.

Rubem Alves é natural de Boa Esperança – MG, no dia 15 de setembro de 1933. É psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro. Em suas obras aborda temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis.
Recentemente li um dos livros do nosso homenageado, chama-se “Se eu pudesse viver minha vida novamente...”, da Editora Verus e que recomendamos a leitura. Nela, Rubem Alves viaja no tempo e no espaço e lança o olhar sobre os sonhos, sobre as perdas e ganhos, detendo-se nos pequenos detalhes que fazem toda a diferença, recorrendo a memórias ora felizes e ora dolorosas, quase sempre com um toque de nostalgia que não é arrependimento, mas sim uma saudade gostosa de algo vivido em plenitude.
É assim, com extrema delicadeza, que chega ao coração e à mente de cada um de nós, despertando-nos para o agora, acordando em nós o desejo de viver da forma diferente – nunca é tarde para isto -, de aproveitar cada instante, de valorizar cada minuto, enchendo-o de beleza, de vontade, de leveza.
 Na segunda parte desta obra, Rubem Alves tece considerações sobre o tempo que passa no capítulo TESTAMENTO vamos mostrar este capítulo pra vocês recomendando a leitura do livro. Onde ele faz uma analogia com a vida e a vela. Observem...

TESTAMENTO

Tempos atrás eu sugeri que se fizesse uma mudança na liturgia que marca a passagem dos anos da vida de uma pessoa, que não mais se apagassem as velinhas, como se a morte dos anos dos anos passados fosse coisa a ser celebrada, mas que se acendesse uma única vela, na esperança de um futuro semelhante a da vela, de luz e de tranquilidade... e cita Edgard Alan Poe, que num ensaio sobre filosofia do mobiliário escreveu manifestando o seu horror aos tipos de iluminação que, já no seu tempo, iam tornando as velas obsoletas. Ele sabia que o que estava em jogo não era apenas a luz, no seu aspecto físico. Era a alma. Bachelar tem a mesma opinião. Tanto assim que, na sua meditação sobre A chama de uma vela, ele observou que há cantos do nosso psiquismo que só suportam uma luz bruxelante.
Uma pessoa diante da luz fluorescente não é a mesma diante de uma vela que queima na escuridão. Disso sabem bem os amantes e é por isso que escolhem o jantar à luz das velas.
O tempo passou e chegou a hora de reacender a minha vela. E não é possível fazer isso sem pensar aqueles pensamentos que só se mostram quando a luz bruxelante se acende. Que pensamentos pensarei? Acho que vou meditar sobre o meu testamento. É uma ideia da qual não se pode fugir, quando se dá conta de que a cera que resta é muito menos que a cera que já queimou.
O testamento é o que restou, depois de feitas todas as somas e subtrações. É aquilo que se passa às mãos dos que continuarão a viver depois de nós, com um pedido: “Por favor, na minha ausência, não esqueça de regar a minha planta...”

Claro que não estou pensando nas coisas que fui ajuntando, ao passar dos anos. Elas não têm a menor importância. Não têm o poder de nos tornar nem mais sábios e nem mais felizes. Porque, SABEDORIA e FELICIDADE são coisas que crescem de dentro, enquanto as coisas ajuntadas ficam de fora. Pelo contrário: já vi vidas e amizades perturbadas e destruídas pela disputa de uma herança.
Aí me descubro ansioso. Porque a distribuição das propriedades e objetos é coisa simples – basta que se escreva um testamento. Mas aquilo que eu realmente desejo dar para os meus filhos não pode ser dado. É coisa que só pode ser semeada, na esperança de que venha a crescer.
(E conclui)

Acho que a minha situação parece com a do Vinícius de Moraes. Também queria deixar um testamento. Não de coisas, como se fosse um ritual eucarístico, em que se dá aos outros são pedaços do próprio corpo, na esperança de que eles comerão e gostarão. No fundo o que se deseja é a imortalidade: continuar vivos naqueles que comem aquilo que lhes oferecemos como herança. Só existe um jeito de dar aquilo que é carne da gente: FALANDO. Vejam só que coisa mais pobre: uma herança onde as coisas deixadas são palavras. Pois foi justamente isto que Vinícius fez. Seu testamento, de que transcrevo alguns fragmentos, é um poema: “O HAVER” Debaixo deste título, tirado da escrituração comercial, está listada a sua “declaração de bens”, o inventário do que sobrou e que ele oferece aos herdeiros.

“Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio [...]
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido [...]
Resta este sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade de rir á toa [...]
Resta essa capacidade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade [...]
E essa pequena luz indecifrável
A que ás vezes alguns poetas dão o nome de esperança. [...]
Resta[...] essa coragem indizível diante do grande medo [...]
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.”

(Rubem Alves continua o comentário)

Sob a minha luz de vela vou ler o poema inteiro. O próprio Vinícius, ao escrever, se sentia como uma vela e dizia:
“Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas...”

É isto que quero deixar aos meus filhos como herança:
A imagem da vela queimando na solidão silenciosa, sem se deixar perturbar pela loucura barulhenta e apressada dos homens de ação e de sucesso; sob a luz da vela, no gozo da tranquilidade solitária, acordar o poeta que dorme em nós. O que não é garantia de felicidade. Mas é garantia de beleza e de serenidade.
E que coisa mais pode alguém desejar receber como herança?
(finaliza Rubem Alves)

UM PENSAMENTO DO ESCRITOR

Amar é ter um pássaro pousado no dedo. 
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, 
a qualquer momento, ele pode voar”.

COMENTÁRIO DE UBAV-Brasil;

É para mim, Neo Cirne, coordenador deste projeto de luz, um orgulho imenso, poder apresentar a vocês um pouquinho do sentimento deste escritor maravilhoso. Espero que tenham gostado desta matéria. Ela estará no ar, uma vez por mês, enquanto o nosso projeto existir, pois, como disse o nobre escritor homenageado, a nossa vela também queima... Assim é a Vida... Brindemos a ela.

TIM-TIM!

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